Santo Agostinho – sobre a morte de sua mãe, Santa Mônica

 

 

10. Em Óstia: contemplação de Agostinho e Mônica

23 Ao aproximar-se o dia de sua morte – dia que só tu conhecias e nós ignorávamos – sucedeu, creio que por tua vontade e de modo misterioso como costumas fazer, que ela e eu nos encontrássemos sozinhos, apoiados a uma janela, cuja vista dava para o jardim interno da casa onde morávamos, em Óstia Tiberina. Afastados da multidão, procurávamos, depois das fadigas de uma longa viagem, recuperar as forças, tendo em vista a travessia marítima. Falávamos a sós, muito suavemente, esquecendo o passado e avançando para o futuro. Tentávamos imaginar na tua presença, tu que és a verdade, qual seria a vida eterna dos santos, aquela que “os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu”. Abriram-se os lábios do coração à corrente impetuosa da tua fonte, fonte de vida que está em ti, para que, aspergidos por ela, nossa inteligência pudesse meditar sobre tão grande realidade.

24 Nossa conversa chegou à conclusão de que o prazer dos sentidos do corpo, por maior que seja e por mais brilhante que seja essa luz temporal, não é digna de ser comparada à felicidade daquela vida, nem mesmo é digna de ser mencionada. Elevando-nos com o mais ardente amor ao próprio Bem, percorremos gradualmente todas as coisas corporais até o próprio céu, de onde o sol, a lua e as estrelas iluminaram a terra. e subíamos ainda mais ao interior de nós mesmos, meditando, celebrando e admirando as suas obras. E chegamos assim ao íntimo de nossas almas. Indo além, atingimos a região da inesgotável abundância, onde nutres eternamente Israel com o alimento da verdade, e onde a vida é a própria Sabedoria, pela qual foram criadas todas as coisas que existiram, existem e hão de existir, pois a Sabedoria mesma não é criada, mas existe como sempre existiu e como sempre há de existir. Antes, nela não há passado nem futuro, pois simplesmente “é”, por ser eterna. Ter sido e haver de ser não são próprios do Ser eterno.

Enquanto assim falávamos, ávidos de alcançar a Sabedoria, chegamos apenas a tocá-la num supremo ímpeto do nosso coração, e, suspirando, renunciamos a essa “primícias do espírito”, para voltarmos ao som vazio de nossos lábios, onde a palavra nasce e morre. Como poderá esta palavra, meu Deus, comparar-se ao teu Verbo, estável em si mesmo, sem jamais envelhecer, e renovador de todas as coisas? 25 E comentávamos: se o tumulto da carne pudesse silenciar, se as imagens da terra, da água e do ar, se calassem; se os céus e a própria alma se calassem e esta superasse a si própria, não mais pensando em si mesma; se os sonhos e revelações da fantasia, se toda língua e todo sinal e tudo aquilo que nasce para desaparecer, se tudo calasse completamente (sim, porque todas as coisas falam aos que sabem ouvir, e dizem: não fomos feitas por nós mesmas, fomos feitas por aquele que “dura eternamente”); se, ditas essas palavras, todos os seres emudecessem para escutar o seu Criador, e se só ele falasse, não pelas criaturas, mas por si mesmo, e se o escutássemos falar, não mais através de língua carnal, ou pela voz de anjo, ou pelo estrondo de trovão, ou em parábola misteriosa, mas ele, diretamente, a quem amamos nas criaturas, a quem ouvimos sem intermediários tal como acabamos de experimentar, atingindo num relance a Sabedoria eterna, que permanece imutável e par além de toda realidade; se essa contemplação se prolongasse e todas as outras visões desaparecessem, e somente esta nos arrebatasse, nos absorvesse e nos mergulhasse no gozo interior, de tal modo que a vida eterna fosse como aquele momento de intuição pelo qual suspiramos… não seria tudo isso a realização do convite: “Vem alegrar-te com o teu Senhor”? E quando acontecerá isso? Não será talvez “quando todos estivermos ressuscitados, mas nem todos transformados”?

26 Assim falávamos, se bem que de modo e com palavras diversas. No entanto, Senhor, tu sabes como nesse dia, durante esse colóquio, o mundo, com todos os seus prazeres, perdia para nós todo valor, e minha mãe me disse; “Meu filho, nada mais me atrai nesta vida; não seio que estou ainda fazendo aqui, nem por que estou ainda aqui. Já se acabou toda esperança terrena. Por um só motivo eu desejava prolongar a vida nesta terra: ver-te católico antes de eu morrer. Deus me satisfez amplamente, porque te vejo desprezar a felicidade terrena para servi-lo. Por isso, o que é que estou fazendo aqui?

11. Morte de Mônica

27  Não lembro bem o que foi que lhe respondi. Passados, porém, cinco dias ou pouco mais, ela caiu de cama com febre. Durante a doença, perdeu os sentidos, por alguns instantes não reconhecia os presentes. Acorremos logo, e ela imediatamente voltou a si. Olhou para meu irmão e para mim ao lado e, como se procurasse alguma coisa, perguntou-nos: “Onde é que eu estava”? Depois, notando nosso espanto e tristeza, acrescentou: “Enterrareis aqui a vossa mãe”. Permaneci mudo, procurando conter as lágrimas. Meu irmão, porém, proferiu algumas palavras, mostrando o desejo de vê-la morrer na pátria e não em terra estranha. Minha mãe repreendeu-o com olhar severo por pensar de tal maneira. E, voltando-se para mim, disse: “Vê o que ele está dizendo”! E então para nós dois: “Enterrai este corpo em qualquer lugar, e não vos preocupeis com ele. Faço-vos apenas um pedido: Lembrai-vos de mim no altar do Senhor, seja qual for o lugar em que estiverdes”. Dito isso da maneira como lhe foi possível, calou-se. A moléstia agravava-se e a fazia sofrer.

28 Eu pensava, ó Deus invisível, nos dons que derramas nos corações de teus fiéis e dos quais provêm frutos maravilhosos. Alegrava-me e te agradecia, lembrando-me de como, no passado, ela se preocupava em preparar a própria sepultura ao lado do marido. Assim como tinha vivido em perfeita concórdia, ela desejava fosse lembrado aos homens: após a peregrinação para além dos mares, o que restava de terreno daquele par unido recebera a graça de ser coberto pela mesma terra, tanto é incapaz a alma humana de compreender os valores divinos. Mas eu ignorava quando foi que essas vaidades, por força da plenitude da vossa bondade, deixaram de existir no coração dela. Eu estava contente, admirando-me de que ela assim procedesse. Na verdade, já em nossa conversa à janela, o seu desejo de morrer na pátria se havia manifestado, quando disse: “O que é que estou eu fazendo neste mundo”? Ouvi também dizer que um dia, estando eu ausente de casa, quando já vivíamos em Óstia, ela, conversando com alguns amigos meus, falava com maternal confiança sobre o seu menosprezo por esta vida e sobre o grande bem que é a morte. Maravilhados diante da coragem dessa mulher – dádiva tua – perguntaram-lhe se não tinha medo de deixar o corpo tão longe de sua cidade natal. E ela respondeu: “Para Deus nada é longe, nem devo temer que no fim dos séculos ele não reconheça o lugar onde me ressuscitará”.

Pelo nono dia de doença, aos cinqüenta e seis anos de idade, quando eu tinha trinta e três, essa alma fiel e piedosa libertou-se do corpo.

Santo Agostoinho, Confissões, livro IX

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