Somos os pais de Francesco, um doce rapaz que foi para o céu há cerca de dois anos e meio, com apenas vinte e um anos, e com a ajuda de Deus, estamos tentando desenvolver na nossa diocese o ministério da consolação na Família de “Filhos no céu”, que tanto desejamos e quisemos na nossa realidade, da qual somos agentes há dois anos e queremos partilhar com vocês a importante experiência que vivemos há alguns meses quando fomos convidados para um encontro promovido pela nossa diocese sobre o tema: “Prospectivas antropológicas sobre o sofrimento na família”.
“Agradecemos de coração esta importante oportunidade que vocês nos oferecem de levar ao interno da Igreja o nosso humilde testemunho, que fazemos voto seja de ressurreição e de esperança, e pedimos desculpas se, tomados pela emoção, não conseguirmos exprimir corretamente o que temos no coração, mas podemos assegurar que a cada palavra o colocaremos nas mãos de vocês. A nossa grande e bela família é reconhecida na Igreja como Associação laical, isto é formada por muitas famílias, seja na Itália seja no exterior, que, em comunhão com os nossos filhos no céu, procuram levar a mesma consolação que receberam a quem viveu a mesma experiência, ajudando-se reciprocamente a elaborar o luto no mistério de Jesus Ressuscitado.
Mesmo não querendo diminuir outras formas de sofrimento, dos quais também nós, não estamos imunes na vida, como acontece a tantas outras famílias, podemos assegurar que a perda de um filho é um evento tão devastante que faz morrer por dentro.
Tira a sua própria vida, os afetos, os interesses, os projetos, as esperanças, tudo é revirado e aparentemente, no início, nada tem mais sentido.
Se até então o nascimento de nosso filho nos fez sentir donos do mundo, capazes de administrar a vida, agora, com ele, tudo tinha ido embora: presente, passado, futuro.
Nos sentíamos também nós sepultados naquela tremenda tumba.
Só a morte, e ainda mais a morte de um filho, obriga você a se medir com os seus próprios limites e a abandonar aquele delírio de onipotência pelo qual todos, mais ou menos, educados pela sociedade na qual vivemos, somos contagiados. Dia após dia, com muita fatiga, mas verdadeiramente, também com muita ajuda da parte de Deus e seguramente de nosso filho que sabíamos, pela fé, estava ao nosso lado a nos dar força, começamos a ver no nosso horizonte algum vislumbre de luz. Nos demos conta de que tudo é dom de Deus, também nosso filho e, mesmo se representava toda a nossa vida e teríamos dado tudo para vê-lo um só instante, tivemos também que fazer as contas com a dura realidade que se apresentou e tomar consciência de que nem tudo o que queremos é possível realizar, há uma Vontade, superior à nossa, que nos ama e nos conduz e que deve ser escutada, respeitada e acolhida.
Então, pouco a pouco tudo se tornou relativo, mudou totalmente o nosso modo de viver, você vive no mundo mas não raciocina mais com a mentalidade do mundo.
Fomos como que renascidos para uma vida nova, como nosso filho. Descobrindo o nosso limite, reconhecemos a onipotência de Deus na nossa vida, instaurando com Ele, um relacionamento intenso de amor.
Descobrimos que a maternidade e a paternidade é um dom que deve ser partilhado não somente com o marido ou a esposa, mas principalmente com Deus que nos doou um filho para nos encher de gozo aqui e na eternidade, através daquela semente de amor que não morre nunca, que nos faz “um em Deus”, que nasceu aqui mas que agora está no Céu fazendo transformar também a nós “pais do Céu”.
Este novo relacionamento com Deus é centrado no amor, um amor que não podemos menosprezar, transformou-se no ar que respiramos. Nos ajuda a viver em comunhão com Ele e com nossos filhos e com as outras famílias que sofrem.
A nossa vida agora é totalmente dirigida a Deus, lá onde você sabe que um dia poderá abraçar novamente o seu filho. No início também nós nos rebelamos, “por que meu filho?”, nos sentimos traídos, como se o caminho de fé que fizemos antes nos tivesse de fazer imunes a toda e qualquer prova. No entanto, percebemos que Ele não nos tinha abandonado, esteve sempre cuidando de nós, cultivando em nós o dom da fé para nos preparar para uma prova assim tão grande. As primeiras respostas que procuramos encontramos na associação “Filhos no Céu”.
Compreendemos que a morte em Cristo é uma passagem a uma vida melhor, não é punição mas eleição, transforma-se em fonte fecunda de vida nova e o Senhor nos estava chamando a uma grande missão: ser testemunhas da sua ressurreição e seus instrumentos de consolação, doando gratuitamente a outras famílias aquela consolação que Ele gratuitamente nos tinha dado.
Agora todos os dias agradecemos a Deus por nos ter feito encontrar esta bela e grande Família, onde vivemos relacionamentos fraternos intensos, verdadeiros, autênticos, onde continuamente tocamos com a mão a Sua presença viva e operante.
Nos nossos encontros, no início, vêm somente mães desesperadas, depois, milagrosamente, o seu rosto relaxa, se ilumina, irradia uma paz que não é deste mundo e chegam também os pais, para saciar-se na mesma e única Fonte de vida eterna e é grande a alegria para todos nós na terra e para os nossos filhos no Céu”.
(extraído de “Indisparte”, periódico italiano semestral de espiritualidade promovido por “Figli in Cielo” I ano I – n.IV – n. 1 – dezembro de 2006).