Quando faltam as palavras

QUANDO FALTAM AS PALAVRAS, O ESPÍRITO SANTO CLAMA A DEUS POR NÓS.

O sofrimento é inevitável, faz parte da vida. Desde pequenos aprendemos a lidar com decepções, frustrações, mas jamais nos preparamos para enfrentar o momento da partida de um(a) filho(a). Quando a missão deles termina, parece que a nossa também terminou, pelo menos é o que desejamos num primeiro momento. Nosso chão é tirado, e nada mais podemos fazer a não ser reaprender a viver… E como isso é difícil.

A partir daí vivemos pela graça de Deus. Parece que o brilho da vida se apagou, os sonhos se tornaram pesadelos, as alegrias nos abandonaram e as palavras antes dirigidas a Deus com entusiasmo, alegria e confiança, simplesmente sumiram, desapareceram, se calaram.

Em muitos momentos desejamos falar freneticamente sobre o que estamos sentindo. De repente nos fechamos num silêncio arrasador. Tudo dói. Dói olhar a vida seguir em frente indiferente com nosso sofrimento; dói olhar ao redor e ver que tudo continua seguindo seu curso; dói ter que continuar cumprindo nossos compromissos mesmo sem vontade, sem ânimo. Dói, tudo dói. Dói ainda nos aproximarmos de Deus sem forças para pronunciar qualquer palavra. Pedir ou agradecer? Dizer o que? Nosso coração está tão machucado que a única coisa que conseguimos fazer é chorar.

Nessa hora o Espírito Santo de Deus entra em ação. “Da mesma forma, o Espírito vem em socorro de nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis. E aquele que examina o coração sabe qual é a intenção do Espírito, pois é de acordo com Deus que ele intercede em favor dos santos” (Rm 8, 26-27).

Nessa hora nos calamos e confiamos que o Espírito Santo está pedindo a Deus por nós. Não temos palavras, não temos forças, tampouco ânimo para pronunciar qualquer frase. Nesse momento abrimos nosso coração ao agir de Deus. É a partir daí que permitimos que Ele tenha livre acesso em nossa vida. É a partir daí que a graça de Deus acontece, talvez porque nessa hora nos lançamos sem reservas em seus braços.

Confiar em nossa humanidade e fragilidade nesse momento é perigoso demais. Só em Deus encontraremos socorro, do contrário seremos conduzidos ao desespero, à angústia e depressão. Mas o Espírito Santo sabe do que precisamos, e como pedir ao Pai. É possível que fiquemos horas prostrados na presença de Deus sem dizer qualquer palavra, e no entanto, o socorro vem em forma de paz, de serenidade.

Assim vamos reaprendendo a viver, um dia por vez. Aos poucos as nuvens que envolviam nosso olhar para o mundo vão se afastando e o sol começa a brilhar novamente. Aos poucos compreendemos que a vida do(a) nosso(a) filho(a) está em Deus, e nada de mal pode lhes acontecer, pois já herdaram a vida plena na eternidade.

Com calma vamos colocando os sentimentos nos lugares. O próprio Espírito Santo vai nos mostrando que a beleza da vida não se acabou totalmente. Que temos muito ainda a fazer, se queremos um dia com nossos filhos reencontrar.

A vida recomeça a sorrir quando entendemos que quem está do nosso lado precisa do nosso amor, e nós precisamos do amor deles também.

Não dá para fechar as portas do coração e deixar de amar aqueles que Deus colocou do nosso lado. São joias de Deus em nossa vida. Graças sobre graças… Parte desse amor foi transformado num amor divino, na presença de Deus, mas parte dele continua conosco, nos envolvendo a cada instante, aquecendo nosso coração e nos encorajando a perseverar. Amor, infinito e eterno amor!

Começa nossa nova missão pela compreensão de que mesmo sofrendo, precisamos continuar a caminhada, seja por nós, pelos nossos familiares que tanto amamos, mas, sobretudo por Deus que nos ama infinitamente, e um dia enxugará de nossos olhos toda lágrima.

Jesus nos convida a confiar em seu amor. Tudo é muito difícil, mas “tudo posso naquele que me fortalece!” (Filipenses 4,3).

Que Deus nos abençoe e nos guarde!

 

Regina Araújo

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8 pensamentos sobre “Quando faltam as palavras

    • Louvado seja Deus por essa paz!
      Se possível, escreva-nos sempre e nos dê notícias.
      Deus te abençoe!
      Abraços,

      Regina

  1. Boa Noite Regina,

    É com lagrimas que escrevo depois de ter lido este texto corretíssimo,
    Preciso de um resposta pelo que tenho passado, já pensei em consultar um padre mas não consegui.

    Minha filha partiu a 01 ano, dia 09 de maio de 2011, tinha 29 anos, era solteira , eu não sei se é pela minha familia pois meu pai tem 80 anos, minha mãe 76, meu marido, meu filho de 24 anos que esse nem ver a irmã no velório foi e nem sabe onde foi enterrada, ele é muito quieto e não fala nada, um filho de ouro aliás os dois.
    Então, eu não consigo chorar perto de ninguém, pode falar o que for sobre minha amada filha eu não consigo chorar.parece que tenho que segurar para que os meus não sofram.
    Choro muito mas sozinha, em meu quarto, no banho, quando vejo as roupas dela, quando olho para o céu, mas nunca perto das pessoas.
    Falo dela normalmente, as pessoas as vezes até choram mas eu não consigo.
    Não deixo de participar da missa, ouço atentamente as palavras do santo evangelho e quero sair da igreja com uma resposta.
    Sempre que perguntei a Deus sobre o porque ele me respondeu, ou pela biblia, ou na palavra de alguem, pelo padre de alguma forma me responde, tanto é que tudo que perguntei ele me respondeu.
    EU TENHO CERTEZA (FÉ)QUE MINHA FILHA ESTÁ JUNTO DE DEUS, O QUE MAIS EU QUERO?SE ESTÁ COM O CRIADOR?
    E MEU CONFORTO É ESTE , SINTO MUITAS SAUDADES .
    AS VEZES ME PERGUNTO, VC QUERIA QUE ELA VOLTASSE E EU PENSO QUE NÃO , QUE EU QUERIA ESTAR LÁ COM ELA.
    Procuro sair ir em algum lugar, ao shoping, fico andando olhando coisas as pessoas…
    Não gosto muito de falar demais com pessoas , pois tenho receio que alguem vá falar alguma coisa que vai me deixar no fundo do poço, pois em 2000 passei por uma forte depressão que até hoje tomo antedepressivos .
    Agora fico assim porque não consigo chorar?
    Sabe, tem pessoas que me falam que tenho que por pra fora, até parece que eu não senti a morte de minha filha…
    Minha filha era minha companheira de tudo.
    Se possível, queria uma palavra.

    abraços,

    • Cara Gislene, a Paz de Jesus!

      Quanta serenidade e fé em suas palavras! Aí está a resposta para o que me perguntou. A fé, a confiança em Deus e a esperança não eliminam nosso sofrimento, mas nos dão condições para enfrentar todos os momentos e a cumprir nossa missão.
      Cada um tem um jeito bem particular de viver o sofrimento. Não é possível comparar a dor, tampouco a maneira que a sentimos. Uns choram muito, outros nem tanto, e nós temos nosso jeito de sofrer silenciosamente. Digo nós, porque assim como você, dificilmente choro na frente de alguém.
      Não vejo isso de forma negativa. Somos seres únicos, e cada um de nós tem seu jeito próprio de ver, viver e enfrentar a vida. Penso que os que não choram com maior facilidade não devem ser considerados frios ou indiferentes. O sofrimento não é medido pela quantidade de lágrimas que deixamos cair, até porque ninguém passa 24 horas conosco e não sabe o que sentimos e como sentimos, a não ser Deus que nos conhece inteiramente.
      Gislene, não se preocupe com isso. Cada um sabe a dor que carrega no coração. O importante é essa demonstração de fé, firmeza e coragem que você deixa claro. Essa preocupação com seu filho, seus pais, seu marido e todos os que te rodeiam é sinal de grande amor. Você não se fechou em seu sofrimento, mas decidiu abrir-se inteiramente ao agir de Deus e a dar continuidade a sua missão.
      Você sabe que aqueles que Deus te deu como família precisam muito de você, e contam com você. O amor não pode ficar sufocado no peito, mas precisa ser dividido, ofertado, oferecido a todos os que de nós se aproximam. Agindo assim vamos ganhando forças para “tocar a vida”. Claro que sofremos, isso é indiscutível, claro que a saudade machuca muito, mas compreendemos que Deus nos quer firmes na caminhada, unidos a todos que, como graça de Deus, foram colocados ao nosso lado.
      Essa certeza que a fé nos dá, que nossos filhos estão em Deus, é também graça de Deus para acalmar o coração.
      A liturgia da Igreja nos ensina que “Para os que creem em Deus, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”.
      Deus socorre e consola a todos, cada um no seu jeito. Ele é Pai, e nos conhecendo profundamente, sabe o que precisamos. No mais, fique tranquila, porque já temos muito sofrimento no coração. Não permita que tais preocupações tire a sua serenidade e a sua paz. Volte-se sempre para sua missão e perceba cada dia mais Deus agindo em sua vida.
      Muito obrigada por nos escrever. Cada um que aqui deixa sua mensagem contribui para o consolo e a caminhada dos irmãos. Deus abençoe!
      Sinta-se parte dessa família dos “Filhos que estão no Céu”. Estamos unidos em oração.
      Fraternalmente,

      Regina Araújo

  2. Ola Regina, eu tambem me senti minhas as suas palavras,pois a dor de uma mãe quando perde um filho ,penso eu que é identica, sentimos as mesmas coisas . Li o que escreveu e como minha perda esta muito recente,dois meses, procuro me apegar nas suas palavras ,quando diz que pela fé, vamos conseguir superar esta imensa dor. Sei que um dia as lágrimas dos olhos vão cessar mas as da alma tambem sei que serão eternas.

  3. Oi,Regina.Ao ler essa mensagem sinto como se fosse eu desabafando.Nós estamos unidas pela dor e esperança de um reecontro no futuro.Como é difícil continuar a vida aí fora e não parecer que estamos dando uma de vítima.Dá a impressão que pertencemos a um outro grupo de pessoas,daquelas que enxergam a vida completamente diferente dos outros e que só quem já passou por isso pode nos entender.Que Deus aquiete seu coração e nos de ânimo para continuar.Um grande abraço.

    • Oi Edna, a Paz de Jesus!

      Algumas palavras que deixo registradas no site, deixo-as em meu nome e em nome de tantas mães e tantos pais que passam por essa imensa dor chamada saudade de um(a) filho(a) que já se encontra com Deus. Talvez por isso você tenha se identificado com elas, porque conhecemos perfeitamente a intensidade dessa dor. Estamos unidas pela dor, mas também pela esperança, como você mesma disse. Formamos uma imensa família dos “Filhos que estão no Céu”, e isso além de nos aproximar, faz com que rezemos uns pelos outros. Aqui uns consolam os outros. Falamos a mesma linguagem da dor, da esperança e do amor.
      Penso que por estarmos envolvidas no mistério de Deus passamos a ver a vida de outra forma. O sofrimento além de nos transformar, nos aproxima de Deus, e aos poucos Ele vai trabalhando em nosso coração e transformando todo o sofrimento em missão. A partir da conscientização dessa missão, as graças que tanto precisamos para sermos fiéis são enviadas. Mas tudo isso só é possível pela fé, que nos faz crer, mesmo sem entender, que Deus está no comando da nossa vida.
      A saudade fará parte da nossa vida, e não nos deixará um segundo sequer, mas como dizemos aqui no grupo, “saudade é o amor que fica”. Significa que saudade é a “presença” dos nossos filhos no nosso coração.
      Edna, conte com as nossas orações, assim como contamos também com as suas orações. Obrigada por nos escrever! Sinta-se a vontade para sempre nos enviar notícias.
      Deus abençoe!
      Grande abraço,

      Regina Araújo

  4. Olá Regina!
    Cada vez que leio suas mensagens percebo o quanto nós, mães de filhos no céu, apresentamos a igualdade de sentimentos…é incrível não se encontrar nessas palavras. Fico exatamente assim, como descrito está, tomo as mesmas decisões citadas e vivo as angústias e dores relatadas. E quando tudo parece que vai desmoronar…levanto, me apego ao grande amor de Deus e continuo a caminhada. Hoje convivo com a minha dor, como algo
    precioso, ou seja, o que é meu…e sei que não dá para repassar para os outros, pois a minha missão está em acolher… e com Deus permanecer para sempre.
    Que Deus continue te iluminando sempre, um abraço fraterno
    MARCILENE

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