Partida e chegada

 

Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara. O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.

Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.

Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: “já se foi”. Terá sumido? Evaporado? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver.
Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exato instante em que alguém diz: “já se foi”, haverá outras vozes, mais além, a afirmar: “lá vem o veleiro” !!!

Assim é a morte.

Quando o veleiro parte,  levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos: “já se foi”.

O ser que amamos continua o mesmo, suas conquistas persistem dentro do mistério divino.

Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita. E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: “já se foi”, no céu outro alguém dirá: “já está chegando”. Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a vida.

A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas. Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.

Assim, um dia todos nós partiremos, como seres imortais que somos, todos nós iremos ao encontro daquele que nos criou.

(Henry Sobel) 

Superar o luto requer tempo

Sufocar a tristeza e as lágrimas pode ser prejudicial, dê tempo ao luto, pois pode demorar semanas, meses, até mesmo anos.

A dor de perder um ente querido é singular. Toda pessoa tem o direito de chorar essa perda o quanto desejar, pois somente ela sabe a dor que passa em seu coração. Em muitos momentos de perda, sempre encontramos os “psicólogos de plantão”, os quais, com suas frases pré-fabricadas, não colaboram em nada com quem está sofrendo a separação. Muitos dizem: “Foi a vontade de Deus”, ou “Ele quis assim!” ou ainda “Foi melhor para ele”. Essas frases pobres e sem fundamento não ajudam em nada; pelo contrário, desfiguram o rosto amoroso do Senhor.

Deus não deseja que o ser humano sofra. O sofrimento é uma condição humana, não um desejo divino. O Senhor é amor, e tudo o que desqualifica o amor de Deus é um jeito impróprio de compreendermos a vida e os seus desdobramentos.

Muitos surgem com frases extremamente “formatadas”, afirmando: “Não chore!”. Como não chorar diante da dor da separação de alguém que nos deixou? Temos, sim, o direito de chorar o quanto quisermos e pelo tempo que desejarmos.

Sufocar a tristeza e as lágrimas pode ser prejudicial

Contudo, o luto é um processo e precisa ser elaborado aos poucos. Sufocar a tristeza e as lágrimas pode ser prejudicial. Dê tempo ao luto, pois pode demorar semanas, meses, até mesmo anos. Durante esse tempo, é normal que você sinta raiva, chore, se revolte e até mesmo questione Deus. É preciso viver esse “outono” para que um novo tempo comece a surgir lentamente, anunciando novas esperanças.

Muitos querem ficar sozinhos, outros preferem partilhar sua dor com algumas pessoas. Tudo isso ajuda a elaborar o processo do luto na vida. Outros ainda buscarão forças na oração.

Sentimentos de culpa

Durante esse processo, muitos questionamentos podem surgir: Por que ofendi tal pessoa naquele dia? Por que não a abracei mais? Por que não lhe disse que a amava? O que não fiz que deveria ter feito? Muitos outros questionamentos poderão surgir. Não os sufoque, mas também não se prenda a eles. Carregue em seu coração a certeza de que Deus, em Seu amor, acolheu seu ente querido.

Alguns rituais podem nos ajudar a superar para viver o processo do luto. Se desejar poderá escrever em uma folha os bons momentos que juntos viveram e também escrever as dores da saudade. Poderá ainda acender uma vela e fazer uma oração ao ente querido. Se sentir necessidade de partilhar com um amigo próximo a dor que sente em seu coração, não fique com medo. Fale, partilhe, desabafe. Nesse momento, é normal que as lágrimas venham. Deixe-as cumprir o papel de desabafo e saudades.

No luto sentimos um vazio enorme

O coração sente que falta algo, um espaço foi aberto. A saudade dói, mas não tenha medo de sorrir novamente, de contemplar as flores, de amar e se sentir amado pelos amigos e familiares. Permita-se recomeçar. A saudade ficará, as lágrimas voltarão, pois o amor que você sente pela pessoa que se foi nunca se apagará. Este amor que você sente lhe dará forças para continuar sua vida e cuidar daqueles que também precisam do seu carinho, do seu abraço e da sua ternura.

Pe. Flávio Sobreiro

(http://formacao.cancaonova.com/espiritualidade/cura-interior/superar-o-luto-requer-tempo/)

Ressignificar o luto

Se não está em suas mãos mudar uma situação que causa dor, você pode escolher com que atitude vai enfrentar esse sofrimento” (Viktor Frankl)

Durante todos esses anos de encontros do Grupo Filhos no Céu, aprendemos que não devemos classificar qual processo de luto é mais difícil de ser elaborado, pois cada pessoa responde de forma muito particular. Entretanto, sem dúvida alguma, enfrentar o luto pela morte de um filho é a tarefa mais difícil da vida.

Não existe dor maior no mundo do que a perda de um filho.

Mesmo sabendo que a ordem natural da vida é os pais partirem antes dos filhos, tememos morrer antes e deixá-los sozinhos, mas ainda que essa realidade seja dura, a aceitamos. Porém a morte precoce de um filho vai contra tudo.  Inverte a ordem da vida.

Não há de se falar em estar preparado. Ninguém se prepara para esse dia. Não é porque o filho enfrentou um longo período de tratamento que os pais estão preparados, e com isso a dor é menor. Qual pai, qual mãe que assimila isso? Será que é possível pensar que os pais, vendo o filho naquele sofrimento, já se prepararam para a despedida? Cruel dizer isso.

Posso afirmar que isso não acontece. Há sempre uma esperança de que a doença vai ser curada, que a vida vai vencer. E de certa forma a vida vence, só que em outra dimensão, a dimensão espiritual. Essa compreensão é que precisa ser trabalhada por nós.

A morte de um filho nos tira o chão, nos tira o brilho da vida. Quando isso acontece precisamos reelaborar as crenças e verdades que acreditávamos, para assim iniciarmos um longo e doloroso processo de reaprendizado. Será preciso reaprender a viver, e isso não tem tempo certo para acontecer. Cada um é único. Não existe regra geral. É preciso um respeito profundo por esse tempo, caso contrário a violência consigo mesmo será irreparável.

Aos poucos a dor se acalma e nos damos conta de que é preciso seguir em frente, que a vida nos espera para concluirmos nossa missão, se quisermos um dia reencontrar com nosso filho ou nossa filha que partiu antes de nós.

Já não somos mais como antes. A mudança que ocorre é imensa, os valores são revistos, as prioridades também. De certa forma isso é bom, porque assim damos valor ao que realmente precisa ser dado. Na verdade a vida ganha outro sentido, ou melhor, damos outro sentido para a vida. Muda tudo! Muda a cor e o sabor da vida!

A dor que não nos deixará jamais passará a se chamar SAUDADE. E a saudade será nossa companheira até o último dia da nossa vida. Teremos que nos reorganizar considerando que ela estará sempre ao lado, pronta para a qualquer momento explodir no peito e balançar as estruturas.

Para quem tem outros filhos, a urgência em recomeçar é ainda maior. Se eles já sofrem por terem perdido um irmão ou irmã, imagine se o pai ou a mãe pararem no luto… Serão várias perdas na vida desse filho, que também sofre e precisa de apoio. Por eles é preciso sair do quarto escuro e voltar a viver, a seguir em frente mesmo sem as respostas para tantas perguntas que gritam no coração.

Chega um dia que a gente percebe que não tem saída. A duras penas teremos que seguir em frente, reaprendendo a viver e reorganizando nossos sentimentos.

É nesse momento que avançamos na fé. Pela graça concedida por Deus vamos aprendendo a enfrentar a vida de frente, com suas alegrias e tristezas. Não há como recuar. Não há como desistir. Nosso destino é o Céu, onde está nosso filho ou nossa filha. E a estrada para chegar até lá é estreita, cheia de pedras e obstáculos.  Sozinhos não temos forças, mas Deus sempre providenciará o que precisamos para podermos continuar.

Embora nossos dias sejam muito difíceis, sabemos que depende de nós escolhermos viver na escuridão da dor ou sob o brilho da esperança. De qualquer forma teremos que percorrer esse caminho. Agora como o percorremos, nós é que escolhemos.

Deus é nosso consolo e Ele nos concede o tempo como um grande remédio. Nele conquistamos o consolo, a serenidade, as lembranças dos bons momentos. E com um pouco mais de tempo, transformamos nosso filho ou filha em eternos companheiros, em Anjos a nos acompanhar durante toda nossa caminhada.

A graça de Deus nos dá a certeza que eles estarão sempre conosco! Nossa caminhada pode ser longa, mas não estamos sós.

Então, com a ajuda de Deus vamos tentar transformar nossa dor em missão, pois acredito que nossos filhos cumpriram na plenitude as suas, e quanto a nós, existe muito que fazer.

Que possamos olhar além da dor, com os olhos da fé, a vida que nos espera. Por mais difícil que seja acreditar, acredite: há espaço em nosso coração para a esperança, para o riso e até para novos sonhos. No fundo, se percorrermos esse caminho tendo Deus a nossa frente, saberemos transformar a dor em missão! Saberemos reconhecer a Graça de Deus acontecendo nos mínimos detalhes da nossa vida.

Assim tem sido, desde o dia 15 de janeiro de 2007, quando a Renatinha foi morar na casa de Deus.

Hoje, dia 21 de julho, é aniversário dela. Tenho certeza que no Céu há uma grande festa. Um Anjo nos visitou, e por 17 anos e 6 meses transbordou nossa vida de muito amor e muita alegria.

Permita Deus que hoje minhas preces de gratidão subam até o Céu e a abrace demoradamente, e daqui eu consiga sentir meu coração abraçado também.

Obrigada Deus pela vida da Renatinha!

Assim vamos seguindo, a cada instante renovando a fé em Deus e confiantes seguiremos até o dia do nosso reencontro. Amém!

 “A vida do exílio é brevíssima. Assemelha-se a uma noite passada em má hospedaria. O pensamento de que tudo passa projeta sobre o sofrimento de hoje um raio abençoado de eternidade. O tempo é uma miragem. Deus já nos vê em sua glória”  (Santa Teresinha).

Regina Araújo