Reflexões sobre o caso João Hélio

 Por Pe. Rogério Augusto

Creio que, dificilmente, alguém que soube do caso tenha conseguido esquecê-lo. Refiro-me ao Caso João Hélio: “…crime ocorrido em 7 de fevereiro de 2007, quando João Hélio Fernandes Vieites (Rio de Janeiro, 18 de março de 2000 — Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 2007) foi assassinado após um assalto. João Hélio tinha seis anos de idade quando foi vítima da violência na cidade do Rio de Janeiro… O que seria mais um assalto a carro no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, transformou-se em uma tragédia que abalou o país. Naquela noite do dia 7 de fevereiro, por volta das 21h30min de uma quarta-feira, Rosa Cristina Fernandes voltava para casa com os filhos Aline, de 13 anos, e João Hélio, de 6 anos. Eventualmente ela parou no semáforo, quando três homens armados, fazendo uso de duas armas, a abordaram dando ordem para que eles saíssem do veículo. O assalto ocorreu na rua João Vicente, próximo à Praça do Patriarca, em Oswaldo Cruz, Zona Norte. A mãe do menino, Rosa Fernandes, foi rendida ao volante do Corsa Sedan, placa KUN 6481. No interior do veículo estavam uma amiga da família e o filho João Hélio no banco traseiro e a filha adolescente viajava ao lado da mãe no banco dianteiro direito, que no momento do assalto conseguiram abandonar o carro, porém, Rosa havia avisado aos assaltantes que João Hélio não havia conseguido se soltar do cinto de segurança. Presa ao cinto de segurança, a criança não conseguiu sair. Um dos assaltantes bateu a porta e os bandidos arrancaram com o veículo em alta velocidade. Com o menino preso pelo lado de fora do veículo, os assaltantes o arrastaram por sete quilômetros… Os criminosos abandonaram o carro com o corpo do menino pendurado do lado de fora…” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_João_Hélio). Na ocasião, em meio a uma indescritível comoção nacional, dada a gravidade cruel que vitimou uma criança tão inocente e desprotegida, tive a oportunidade de ler um discurso proferido por um senador brasileiro (não entro em qualquer mérito de simpatia ideológica, partidária ou o que quer que seja), no dia 13 de fevereiro de 2007. As palavras do discurso não pretendem oferecer qualquer solução ao problema da violência, do crime, nem podem sanar a dor pela perda daquela vida tão importante, mas nos ajudam a pensar sobre os rumos da nossa sociedade. Eu o transcrevo aqui porque me parece que pode ser útil:

O SR. PEDRO SIMON

(PMDB – RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.).
Obrigado pelos dois minutos a mais, Sr. Presidente.

Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, a Srª Rosa Cristina, mãe da criança tão tristemente comentada pelo que aconteceu com ela no Rio de Janeiro, pede uma audiência com o Presidente do Senado Federal. Talvez, amanhã, ela converse com o Presidente Renan.Venho a esta tribuna para ler uma Carta Aberta que faço à Srª Rosa Cristina.

CARTA ABERTA PARA ROSA CRISTINA.
Mãe: Conheço o tamanho de tua dor, que é a mesma do Élson e da Aline. Para mim, é, também, uma dor vivida. A perda de um filho é, sem dúvida, o maior de todos os sofrimentos. Por que tamanha provação? Versões contemporâneas de Abraão? Tome seu filho, o seu único filho Isaac, a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o, aí, em holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostrar. Por que, então, o anjo de Javé não te ajudou a desatar aquela simples fivela de um cinto dito de segurança, que permitiria devolver aos teus braços de mãe o pequeno João Hélio, o Isaac dos nossos tempos, para que ele permanecesse entre nós, dividindo e multiplicando sua alegria de vida? Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? É nesses momentos que nos sentimos ínfimos diante dos desígnios do Criador. Pior: é também nesses mesmos momentos que sabemos o quanto a humanidade se distanciou de Sua obra. Dissestes: Eles não têm coração. Eles têm! É que nós utilizamos os dons que nos são ungidos e criamos, com novos deuses, a inteligência artificial, enquanto desdenhamos os sentimentos mais sublimes e naturais, aqueles que brotam somente e somente em corações fertilizados pelo amor e pela fraternidade. Ao contrário, permitimos que florescesse em muitos corações, nas favelas e nos palácios, a barbárie: no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Brasília, em Washington ou em Bagdá. É a humanidade, enquanto gênero humano, que se distancia dos seus próprios conceitos de benevolência, de clemência e de compaixão. Que tuas lágrimas não se percam apenas nos índices de audiência e nos discursos de conveniência. Ao contrário, que elas mobilizem corações e mentes para a reconstrução dos valores que perdemos nessa travessia terrena. Em outros tempos, não tão distantes, os valores morais e culturais se construíram sobre o tripé: família, escola e igreja. Hoje, a família foi dilacerada; a escola, sucateada; a igreja, excomungada. No lugar, um novo e perverso tripé: a droga, a rua e a arma. A droga, como estímulo; a rua, como palco; a arma, como poder. Ainda naqueles outros tempos, as famílias se reuniam para contar e para trocar suas histórias de vida. Era um grande círculo de amizade e de fraternidade. Família, escola e igreja ao mesmo tempo e no mesmo espaço. Respeito, aprendizado e benção. Pais heróis. Hoje, o círculo familiar deu lugar a um semicírculo vicioso: no centro, a TV, e os novos heróis são aqueles que mais atiram, que mais batem, que mais matam. É a arte imitando a vida, ou incentivando a morte, ou vice-versa. Portanto, por mais que se tente considerar ultrapassados os discursos como os meus, que pregam o resgate da humanidade, o teu sacrifício demonstra que eles são atuais e, cada vez mais, necessários. Por isso, não mudei nesses tantos anos de vida pública. Continuo vivendo os valores que herdei da família, da escola e da igreja. Para mim, não há diferença entre o favelado que puxa o gatilho nas esquinas e o dirigente que manda despejar mísseis sobre cidades inteiras. Quantas serão as mães de Bagdá que choram a morte dos seus pequenos inocentes, meninos da guerra, trucidados em nome do poder e da ganância? Pior: em nome de Deus. São todos bárbaros, cruéis, desumanos! É essa a minha luta para resgatar o verdadeiro sentido de humanidade. Que os homens retomem o projeto do Criador. Onde reina a barbárie, de nada vão adiantar novas leis que não se cumprem; novas punições, que servirão, tão-somente, para alimentar a impunidade. Há que se ressuscitar as letras mortas, e isso se faz somente com o grito estridente das ruas. Como bem dissestes, minha querida mãe, o teu filho não pode ser mais um número nas estatísticas da violência. Como em outros casos tão recentes, temo que a tua imolação seja esquecida quando a comoção dobrar a esquina, talvez a mesma esquina em que foste abordada tão covardemente. Mas a tua dor, não. A dor por um filho é eterna. Mas há, sempre, lá no mais fundo da nossa existência, uma imensa força, que nos faz, pelo menos, conviver com tamanho sofrimento. Essa energia, que é divina, nos ampara até o reencontro em outra dimensão. Por isso, as tuas lágrimas têm de irrigar a indignação, que hoje toma conta de estádios, de ruas e de lares; das famílias, das escolas e das igrejas. Quem sabe o sacrifico do teu filho signifique o renascimento do tripé que suporta outros valores, que não a barbárie. Somos parceiros nessa dor. Em tempo: quando conversares com João Hélio, nos teus sonhos de mãe, diga-lhe que um menino alegre, feliz, bonito e inteligente como ele irá procurá-lo entre todos os anjos. Diga-lhe que eles têm muito em comum na inocência de criança. Ele partiu há alguns anos, mas, nas minhas mais belas lembranças, o meu filho continua o mesmo guri que me encantava a alma. Também partiu precocemente, como todas as vítimas de algum tipo de violência. Diga-lhe que esse guri se chama Matheus. Eu já conversei com ele nos meus sonhos de pai. Um abraço fraterno, minha querida mãe.

Senador Pedro Simon.

Obrigado, Sr. Presidente.

(http://www.senado.gov.br/sf/atividade/pronunciamento/detTexto.asp?t=366467)

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