Testamento do Papa Paulo VI

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Fixo o olhar no mistério da morte, e daquilo que a segue, à luz de Cristo, o único por quem ela é esclarecida; e por isso faço-o com humildade deste mistério, que para mim sempre se refletiu sobre a vida presente, e bendigo o Vencedor da morte por haver afugentado as trevas e manifestado a luz.

Por isso diante da morte, total e definitivo desprendimento, sinto o dever de celebrar o dom, a felicidade, a beleza e o destino desta mesma fugaz existência: Senhor, agradeço-te por me haveres chamado à vida, e ainda mais porque, fazendo-me cristão, me regeneraste e destinaste à plenitude da vida.

De igual modo sinto o dever de agradecer e de abençoar quem para mim foi transmisssor dos dons da vida, os quais, da tua parte, Senhor, me foram distribuídos: quem na vida me introduziu (oh! sejam benditos os meus digníssimos pais!), quem me educou, me quis bem, me beneficiou, me ajudou e rodeou de bons exemplos, de cuidados, de afeto, de confiança, de bondade, de afabilidade, de amizade, de fidelidade e de fineza. Olho com reconhecimento para as relações naturais e espirituais que deram origem, assistência, conforto e significado à minha humilde existência: quantos dons, quantas coisas belas e altas, quanta esperança recebi neste mundo! Agora que a jornada acaba, e que, esta estupenda e dramática cena atemporal e terrena, tudo termina e se desfaz, como agradecer-te, ó Senhor, depois da vida natural, aquele outro dom, ainda superior, da fé e da graça, em que afinal unicamente se refugia o que resta do meu ser? Como celebrar dignamente a tua bondade, Senhor, por me ver introduzido, apenas entrei na terra, no mundo inefável da Igreja católica? Como também por haver sido chamado e iniciado no sacerdócio de Cristo?  Como ainda por ter experimentado a alegria e a missão de servir as almas, os irmãos, os jovens, os pobres e o Povo de Deus, e a imerecida honra de ser ministro da santa Igreja, especialmente em Roma, ao lado do papa, depois em Milão como arcebispo, sobre a cátedra, para mim demasiadamente alta e venerabilíssima, dos santos Ambrósio e Carlos, e finalmente sobre esta, suprema, formidável e santíssima de São Pedro? Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor.

Recebam saudação e bênção todos aqueles que encontrei na minha peregrinação terrena; os que foram meus colaboradores, conselheiros e amigos – e tantos foram, e tão bons, generosos e queridos! Benditos os que acolheram o meu ministério, que foram meus filhos e irmãos no Senhor!…

Entretanto, o pensamento volta-se e alarga-se em redor; bem sei que não seria feliz despedida, se não me recordasse do perdão, que devo pedir, a quantos haja ofendido e não servido, não amado suficientemente; se não me recordasse do perdão que alguém desejasse de mim. Que a paz do Senhor esteja conosco.

E sinto que a Igreja me circunda: ó Santa Igreja, una, católica e apostólica, recebe, com a minha saudação de aplauso, o meu supremo ato de amor.

Para ti, Roma, diocese de São Pedro e do Vigário de Cristo, diletíssima para este último servo dos servos de Cristo, a minha bênção mais paternal e mais plena, para que tu, Urbe do Orbem sejas sempre consciente da tua misteriosa vocação, e quer com as virtudes humanas, quer com a fé cristã, saibas corresponder, por longa que seja a história do mundo, à tua espiritual e universal missão…

E para vós todos, venerandos irmãos no episcopado, a minha cordial e reverente saudação; estou convosco na única fé, na mesma caridade, no comum empenho apostólico, no solidário serviço do evangelho, para a edificação da Igreja de Cristo e para a salvação da humanidade inteira. Para todos os sacerdotes, para os religiosos e religiosas, para os alunos dos nossos seminários, para os católicos fiéis e militantes, para os jovens, para os que sofrem, para os pobres, para os que procuram a verdade e a justiça, para todos, a bênção do papa que morre.

E assim, com particular reverência e reconhecimento aos Senhores cardeais e a toda Cúria romana: diante de vós que me rodeais de perto, professo solenemente a nossa fé, declaro a nossa esperança, celebro a caridade que não morre, aceitando humildemente da vontade divina a  morte, a mim destinada, invocando a grande misericórdia do Senhor, implorando a clemente intercessão de Maria Santíssima, dos Anjos e Santos, e recomendando a minha alma ao sufrágio dos bons…

Acerca das coisas deste mundo: proponho-me morrer pobre e simplificar assim toda a questão a este propósito.

Recomendo vivamente que se façam disposições para os sufrágios convenientes e para generosas esmolas, quanto for possível.

A respeito do funeral: seja piedoso e simples. (Tire-se o catafalco agora em uso para as exéquias pontifícias, substituindo-o por estrado humilde e decoroso).

O túmulo desejaria que fosse no interior da terra, com humilde sinal a indicar o lugar e convidar à piedade cristã. Nada de monumento para mim.

E a respeito do que mais conta, despedindo-me da cena deste mundo e encaminhando-me para o julgamento e a misericórdia de Deus: tantas coisas teria para dizer, tantas. Sobre o estado da Igreja: preste ela atenção a algumas palavras nossas, que para ela pronunciamos com gravidade e amor. Sobre o Concílio: cuide-se de o levar a boa execução e proveja-se para lhe realizar fielmente as prescrições. Sobre o Ecumenismo: continue-se a obra de nos aproximarmos dos irmãos separados, com muita compreensão, muita paciência e grande amor; mas sem nos afastarmos da verdadeira doutrina católica. Sobre o mundo: não se julgue que é ajudá-lo adotar-lhe os pensamentos, os costumes e os gostos, mas sim estudá-lo, amá-lo e servi-lo.

Fecho os olhos para esta terra dolorosa, dramática e magnífica, chamando uma vez mais sobre ela a divina bondade. Abeçôo ainda a todos. A Roma especialmente, a Milão e a Bréscia. Para a Terra Santa – a Terra de Jesus, aonde fui como peregrino de fé e de paz p uma saudação especial de bênção.

E para a Igreja, para a diletíssima Igreja católica e para a humanidade inteira, a minha bênção apostólica.

E por fim: nas tuas mãos, Senhor, entrego o meu espírito. Eu: Paulo PP. VI.

Dado em Roma, junto de São Pedro, aos 30 de junho de 1965, ano III do nosso Pontificado.

Texto extraído da página eletrônica:  http://www.ocampones.com/?p=1964

O texto original, em italiano, pode ser encontrado na página eletrônica do Vaticano:  http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/speeches/1978/august/document/hf_p-vi_spe_19780810_testamento-paolo-vi_it.html

 

Um pensamento sobre “Testamento do Papa Paulo VI

  1. O Papa Paulo VI era primo de 1˚ grau do meu avô pai da minha mãe. Que honra. Quando me casei recebi um telegrama do Papa abençoando o casamento,telegrama este que foi lido durante a cerimônia. Foi uma emoção muito grande e inesquecível.

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