Tudo no seu tempo certo

PARA TUDO HÁ UM TEMPO

Desejo partilhar com vocês mais uma experiência que Deus me permitiu viver.

Há mais de oito anos aprendo a viver sem a Renatinha. Digamos que sem sua presença física, porque no coração ela está muito presente.  O amor verdadeiro não se acaba. Transcende o tempo, espaço e permanece vivo. O laço que nos une é eterno.

Nos encontros mensais do nosso grupo vamos sempre aprendendo a lidar com o luto. Já partilhamos ali a experiência do primeiro aniversário sem o filho ou filha. O primeiro natal, o primeiro dia das mães, dos pais, enfim, a dura realidade de reaprender a  viver, principalmente em certas datas marcantes. E Deus tem nos capacitado.

Até então guardava os resultados de todos os exames médicos feitos por ela. Foram quase dois anos de luta contra a doença. Havia muitos exames. Guardava também suas roupas e pertences.

Acredito fielmente que tudo, e para tudo, tem um tempo certo. E cada pessoa tem o seu. O que para uns acontece num piscar de olhos, para outros leva uma eternidade. Não existe comparação, não existe fórmula, regra, manual.

A vida se escreve vivendo. Só não aprendemos se nos fechamos. Aí não tem como Deus agir. “Eu estou à porta e bato” disse Jesus. Se abrirmos Ele fará morada. Ele carregará nosso fardo e nos ajudará a caminhar.

Desde que a Renatinha foi morar no Céu, mantinha guardado a maioria de seus pertences. Estavam intocáveis.  Cada um sabe a hora certa de doar ou desfazer  de tudo. Isso não é o mais importante. O importante é estarmos prontos.

Se esse gesto for encarado como uma obrigação, uma regra, uma imposição, talvez cause uma violência tão grande e sem proporções, capaz de deixar estragos sem limites. Por isso me permiti elaborar melhor internamente e esperar a hora certa chegar. E como saber se ela chegou? Deus nos mostra. Quando Ele age, o coração fica em paz. Tudo acontece naturalmente.

Minha família nunca me cobrou tal atitude. Sempre houve comigo muita paciência, respeito e amor. Na família cada um tem seu jeito de sofrer e enfrentar a dor. O importante é todos permanecerem unidos em Deus nessa dolorosa missão. Caso contrário haverá outras dores a se enfrentar.

Recentemente estava me preparando para mudar. No início achei realmente que seria mais uma das minhas tantas mudanças de endereço. Mas não. Deus estava me preparando para dar mais um passo no processo do luto.   Deus é sutil, é gentil, nos respeita e age com tanta simplicidade que corremos o risco de não perceber seu agir.

Estava finalizando a mudança quando me vi sozinha, num quarto quase vazio. Lá estavam os exames guardados ainda, não tinha tido coragem mexer neles. Mas foi preciso. Sentei-me no chão e fui abrindo, um a um. Senti meu coração quase explodir pela dor. Não resisti. Chorei e me lancei nos braços de Deus.

Percebi então que estava na hora de dar mais um passo e deixar tudo o que lembra sofrimento guardado no coração de Deus. No meu só quero que fiquem as boas lembranças.  Assim agi e desfiz de todos. Enquanto desfazia deles, conversando com Deus, veio em meu coração as roupas e demais pertences. Percebi então que era chegada a hora de desfazer deles, não porque estavam incomodando ou ocupando espaço, mas porque nesse gesto de doar o que pertencia a ela, eu estava escrevendo uma nova página na minha vida. Uma página escrita com as lágrimas da esperança, da confiança, da certeza de que ela não vai mais precisar de nada material simplesmente porque ganhou a vida eterna no Céu.

Não seriam essas roupas que representariam sua presença. Não! Sua presença está no meu coração, que bate forte por ela todos os dias desde o abrir dos meus olhos até quando me deito novamente.

Tudo tem seu tempo. Que saibamos respeita-lo para não cometermos nenhuma violência conosco mesmo. Tenhamos paciência conosco. Façamos a nossa parte que Deus fará a dele.

E assim vamos seguindo, ora chorando, ora sorrindo, ora caindo, ora levantando. Cada dia é um degrau a mais que alcançamos. Cada dia vivido nos aproxima dos nossos filhos.

Que possamos compreender que apesar das noites escuras que temos que atravessar, apesar do cansaço do dia a dia, nossa vida está nas mãos de Deus.

Que possamos ser fieis até o dia que Deus reservou para o reencontro com os nossos filhos no céu. Que assim seja!

Regina Araújo

Dona Benê e Sr. Antônio Bicarato: agora juntos no Céu…

 

 BENEDITA E ANTÔNIO BICARATO: AGORA JUNTOS NO CÉU…

 

Sr. Antonio e D. Benê

 

Falecimento de uma senhora admirável

Da. Benedita Bicarato (Benê, esposa do Sr. Toninho), da paróquia de São João Bosco, no Jardim das Indústrias, em São José dos Campos -SP. Faleceu na noite do dia 30 de janeiro de 2011, depois de 4 anos de hemodiálise e 18 dias de internação. Foi sepultada na memória litúrgica de São João Bosco, 31 de janeiro. Era uma mulher culta, inteligente, com idéias muito claras e uma fé muito viva. Sua resignação diante do sofrimento dispensa qualquer comentário. Demonstrava uma gratidão muito profunda aos seus pais, especialmente o seu pai, sobre quem não escondia uma extrema admiração. Testemunhava uma belíssima vivência matrimonial, revelando uma grande amizade pelo seu esposo. Nas missas era uma presença atenta e participante. Ao término das celebrações, uma amiga que me trazia muito contentamento ao me procurar para cumprimentar e abraçar. Na última Quinta-feira Santa, em 2010, integrou o grupo dos Apóstolos e participou do Lava-pés. Foi uma presença marcante! Ela não sabia se conseguiria estar na celebração porque, naquele dia, tinha de fazer hemodiálise e não sabia se estaria bem à noite. Seus familiares, na missa de sétimo dia, trouxeram a público esta oração maravilhosa escrita por ela:

Senhor, hoje estou aqui para fazer sala contigo.

Desaprendi há muito tempo o sentido do silêncio, do murmúrio.

Ouvi muito o vento que curva as árvores e esqueci como é o som da brisa que, quase calada, passa por meu rosto como um beijo suave.

Há tanto barulho, Senhor, que houve momentos absurdos que me fizeram esquecer Teu nome.

E, quando voltei a mim, senti uma necessidade muito grande de Tua presença.

Por todos os lados ruídos, latidos, gritos, e meu coração, calado, mais que nunca precisando de Ti.

Curvei meus ombros e humildemente chego silenciosa para esse abraço amigo, fraterno. Quero ouvir teu coração batendo ao lado do meu, numa cadência bonita, carregada de sons meninos, onde volto a ser criança precisando de colo.

texto inédito, sem data, de

Benê Bicarato

* 25/12/1944

+ 30/01/2011

postado por Pe. Rogério das Neves

Pe. Rogério das Neves |

Em 12/01/2012 21:47, Antonio Bicarato escreveu:
À medida que se aproxima o primeiro aniversário de sua partida, avoluma-se sua presença dentro de mim. Recordações, detalhes, amores, alegrias, sonhos feitos e desfeitos juntos, num vai e vem confuso às vezes, povoam minha mente e coração. E nesses dias de tanta chuva em Brasília, me veio este pensamento…
BENÊ E AS ROSAS
Toda manhã, ao sair de meu quarto, a primeira coisa que me é dado admirar é o roseiral no jardim interno da casa onde moro.
Como ultimamente tem chovido praticamente todos os dias, às vezes o dia todo, percebo que as rosas não gostam de tanta chuva assim. Gostam mais dos dias ensolarados. Ficam mais radianrtes, com brilho e luz, irradiando alegria.
Já a minha rosa – a Benê – amava de paixão a chuva. Sim, exultava igualmente com os dias cheios de sol, vibrava ao ver o céu azul e límpido, sem qualquer sombra de nuvem, como amava também imaginar anjos, cordeirinhos ou outros animais desenhados pelas nuvens no horizonte. Mas, encantada mesmo ela ficava é com a chuva. Janelas grandes, vidros transparentes na casa que eram para que pudesse admirar a chuva. Parecia que se deixava banhar a alma e um sorriso lhe abria o rosto sempre lindo.
Ah, Benê, você era mesmo ímpar, incomparável. Até aí no céu tenho certeza que encontrou “sua” maneira de estar entre os santos e anjos e de louvar e bendizer a Deus.
A saudade nos machuca, mas a certeza do reencontro nos anima a prosseguir na caminhada. O tempo passa, quase 365 dias já, e, no entanto, que são eles diante do micromilionésimo de segundo da eternidade que você já vive?
Enquanto isso, olho as rosas e vejo você. Especialmente uma, cor-de-rosa, linda, linda, que acabou de desabrochar!
Toninho
12/01/2012.

Caro amigo, Sr. Toninho.
É impossível não se emocionar ao sentir, por suas palavras, a grandeza da pessoa a quem o senhor se refere. Eu tive poucas oportunidades de conhecer pessoalmente tudo isso, mas estas oportunidades foram marcantes e se harmonizam perfeitamente com a imagem que suas palavras transmitem. A gente quase ameaça a ficar triste diante do sagrado impulso de querer estar junto, tocar, falar e ouvir; movimento impossível de se realizar quanto se desejaria. Mas a beleza excede infinitamente ao sentimento frágil da saudade. O amor revelado na dor e na saudade, mostram que ninguém está tão longe assim. Talvez, muito mais próximo agora do que antes. A saudade nos mergulha no mistério, enxagua a nossa alma, e rega ainda mais a roseira do amor plantada no nosso coração.
Obrigado pelo seu testemunho de amor.
Pe. Rogério das Neves

Vera Lucia |

Benê, mesmo em tão curta convivência juntas creia, muito me ensinou! O amor, o carinho e principalmente o respeito com o proximo que voce praticava deixou marcas. O destino assim determinou, mesmo que nossa amizade precoce tivesse sido interrompida pela natureza jamais será pelos ensinamentos de Deus. Esteja bem ao lado do Pai.

 

 

Faleceu Antônio Bicarato, colaborador da CNBB

Segunda, 24 de novembro de 2014 – 17h30 CNBB

SrToninhoBicarato%20270x270

Morreu hoje, 24, pela manhã, o colaborador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Antônio Bicarato. Seu Toninho, como era conhecido, atuou na instituição desde 2011, inicialmente como auxiliar de administração e, em seguida, como revisor de textos. Em nota de pesar, o secretário geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, expressa solidariedade à família, amigos e colaboradores da instituição. “Toninho, oblato redentorista, dedicou sua vida e seus dons com generosa fidelidade à Igreja, na oração diária da Liturgia das Horas e do Rosário de Nossa Senhora, na dedicação aos mais pobres, na educação da família e na pronta disponibilidade para servir. Na CNBB, passaram por suas mãos boletins de notícias, documentos, comunicados e tantas importantes publicações que animaram e colaboraram com a ação evangelizadora da Igreja no Brasil”, afirma no texto. Leia, na íntegra, a nota:

 Nota de pesar pelo falecimento de Antônio Bicarato

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB manifesta pesar pelo falecimento do Sr. Antônio Bicarato, carinhosamente chamado de Toninho. Aos 74 anos, o colaborador estava em tratamento contra um câncer no pâncreas e faleceu na manhã de hoje, 24. O sepultamento está agendado para esta tarde, às 17 horas, em São José dos Campos – SP

Natural de Santa Cruz do Rio Pardo – SP, Toninho atuou na CNBB desde setembro de 2011, inicialmente como auxiliar de administração e, atualmente, como revisor de textos. O assessor era viúvo e deixa cinco filhos e duas netas.

Toninho, oblato redentorista, dedicou sua vida e seus dons com generosa fidelidade à Igreja, na oração diária da Liturgia das Horas e do Rosário de Nossa Senhora, na dedicação aos mais pobres, na educação da família e na pronta disponibilidade para servir. Na CNBB, passaram por suas mãos boletins de notícias, documentos, comunicados e tantas importantes publicações que animaram e colaboraram com a ação evangelizadora da Igreja no Brasil.

Manifestamos nossa solidariedade, unindo-nos fraternalmente aos familiares, amigos e colaboradores desta Conferência no testemunho de fé nas promessas do Ressuscitado.

“Vem, servo bom e fiel, participar da alegria do teu Senhor”! (Mt 25,23)

 Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília

Secretário Geral da CNBB

 extraído da página eletrônica: http://www.cnbb.org.br/imprensa-1/noticias/15401-faleceu-antonio-bicarato-colaborador-da-CNBB

 

Palavras escritas pelo Sr. Antônio Bicarato pouco depois da morte de Dona Benê e que seus filhos agora publicaram na lembrança da Missa de sétimo dia do Sr. Antônio, celebrada por Dom Leonardo Ulrich Steiner, na capela Nossa Senhora Auxiliadora, Jardim Pôr do Sol, da Paróquia de São João Bosco, em São José dos Campos, da qual a família fazia parte.

Se me dado fosse tal ventura, partiria em sua busca, e não deixaria, como deixei, tantos sonhos para amanhã.

O amanhã nunca chegou. A duras penas, aprendi que o presente é o momento a ser vivido com toda a intensidade e jamais deixado para depois.

Se asas me dado fosse ter, partiria em sua busca na velocidade do vento, para poder realizar um ao menos de tantos desejos seus… que morreram desejo.

Você sempre achava possíveis coisas que impossíveis eu julgava. Não acreditava que todo sonho, uma vez sonhado, só não se realiza se nós o tornamos impossível.

A montanha, tenha ela a altura que tiver, sempre estará sujeita a ser vencida pelo esforço do homem.

Se deuses queremos ser, deuses seremos, a despeito da pequenez e dos limites do ser humano. Deus em nós colocou rasgos de sua onipotência!

Sonhar alto, como você sempre sonhou, alarga os horizontes, quase infinitos os tornando.

Assim, me dado fosse, partiria em sua busca, rasgaria os céus, e a traria não mais nas asas do sonho, mas da realidade presença, tendo-a em carne e osso, viva, palpitante, mesmo que por um fugaz momento.

Que não seria fugaz, pois a aura da eternidade já faz parte de você!

Toninho – Papa – Vô

Antônio Bicarato

14 de junho de 1940 – 24 de novembro de 2014

Carta de uma mãe

Dia 18 de janeiro de 2013, são 3h36 minutos da manhã.

Boa Noite Jesus,

Senhor, que hora difícil na minha vida, mas não estou só, eu sinto a tua presença junto de mim. Neste momento eu te faço um pedido, que seja feito a Tua vontade  e não a minha. Que o Senhor faça o melhor para minha Gisele.

Pai se for de tua vontade, dai a luz da vida para minha filha, ela precisa viver, pois ela faz parte do sol que brilha na minha vida, e o Senhor sabe o quanto essa menina tem sofrido, por isso Pai eu ti peço, faça esse raio de sol voltar a brilhar para nós, que ela saia da UTI, cheia de vida e saúde. Eu confio em Ti Senhor, mas se a missão dela está cumprida, nada posso eu fazer a não ser viver e confiar no Senhor. Peço-Te que não se afaste de mim, me dê forças e coragem pra suportar tudo. Dê forças para o Jair, para a Jú, para Adriana, para Rose e para todos.

Senhor abençoe a minha família, em especial a minha Gisele.

Obrigado Pai do Céu, confio em Ti, olhai por nós e nos dê coragem. Amém!!

De sua filha Sueli Fátima Gemeros Silva

Gisele, filha de Sueli Fátima Gemeros Silva e Jair Rodrigues da Silva, partiu para a casa do Pai, nesta mesma madrugada às 4h36.

Carta de uma filha ao pai que partiu

Carta de uma filha ao pai que partiu
Queria aproveitar o momento para satisfazer o meu pensamento.
Quero te falar francamente, mesmo com você ausente o quanto é importante ter você presente.
Quero agradecer a você por ter passado em minha vida. Deus me deu a ti para vivenciar e com você aprender a amar.
Queria te dar um beijo mais não encontro jeito. Queria te dar um abraço, mas cadê os seus braços.
Sei que não tens culpa e não tem a quem culpar. Mas fostes embora, e partiu, foi morar na casa de Deus, onde ainda não posso te visitar.
Mas sei que onde está sempre estará me guiando nos passos que vou dar.
Quando a saudade aperta e machuca, elevo meus pensamentos ao vento para que ele leve um forte abraço através do espaço, pois não sei onde te acho.
Apesar da distância separar dois corpos, ela jamais separa dois corações. Assim, me pego pensando em você e viajo em um sonho de amor e carinho, nesta hora eu sinto a brisa do vento trazendo de volta o teu abraço achado no espaço.
Quando a brisa do vento toca delicadamente em minha face sinto a sua presença, seu cheiro, apesar de não me tocar você veio através do vento me abraçar.
Neste momento, deixo a imaginação tomar conta do meu sentimento. Você não sai da minha cabeça, de ti não me esqueço, lembro de você em todos os momentos.
E deixo que o vento me aproxime de você lentamente, passo a passo até você me encontrar para que possamos nos abraçar e a saudade matar.
A saudade se faz na sua ausência. Desejaria por toda a minha vida voltar ao tempo atrás para te dizer: “Eu te amo demais porque você é o meu herói, te amarei para sempre.”
De Mariana para Edmundo

Renatinha: cinco anos de vida no Céu!

RENATINHA: CINCO ANOS DE VIDA NO CÉU!

No dia 15 de janeiro deste ano, a Renatinha completou cinco anos de vida no Céu.  Esses cinco anos tem sido de aprendizado diário. Tento evitar lembranças tristes, talvez como maneira de “lidar” melhor com a saudade, já que ela é brutal demais. Não que evite pensar na minha filha querida, mas evito pensar nas circunstâncias em que tudo aconteceu, em momentos que não me ajudam a caminhar, mas ainda me fazem sofrer demais.

Os quase dois anos de tratamento foram muito contraditórios. Ao mesmo tempo em que sofríamos diariamente com sua doença, ríamos frequentemente; ela era muito alegre, otimista, sempre fomos muito felizes. Foi nesse período que sentimos profundamente o amor de Deus na nossa vida. Foi a partir daí que fizemos uma experiência profunda de fé.

Lembrar da Renata é uma bênção. Seu rostinho sorridente não sai da minha cabeça sequer por um segundo. A todo instante parece que a vejo do meu lado, e conforta o coração viver sentindo sua presença, ainda que espiritual. Às vezes, quase sempre, acabo chorando. Não vejo problema nenhum em chorar, é até positivo chorar, mas geralmente evito chorar na frente de alguém, principalmente da minha família. Isso porque quero poupá-los, já que eles também carregam essa dor no coração. Mas minha fé me faz crer que a vida dela foi transformada numa vida eterna ao lado daquele que ela mais amou: Jesus Cristo, e por Ele foi fiel e obediente, apesar de tanto sofrimento.

A Renata me ensinou muito, e ainda me ensina. É estranho dizer isso, mas em diversas situações me vi tentando “pensar” e “agir” como ela… Apesar de estar muito longe do agir e pensar daquela preciosidade.

Quando ela se foi, fiquei perdida em meio a dor, porque por mais fé que tivesse naquele momento, no fundo também queria entender. Passei noites inteiras acordada.  Não tinha fome, mas me alimentava porque sabia que era preciso reagir. Não sentia e não sinto revolta, mas lidar com a saudade, o lugar vazio à mesa, na cama, na vida, é muito difícil de encarar. É preciso reaprender a viver, é preciso reorganizar a vida.

A Rê, dentre os pacientes da oncologia na ocasião, era a que mais demonstrava possibilidades de cura. O tratamento começou em maio de 2005. Nesse intervalo foi preciso ser submetida a uma cirurgia cardíaca e várias sessões de quimioterapia. Em todos os momentos ela estampava em seu rostinho um sorriso maravilhoso. Uma fé madura, impressionante. O tratamento seguia, entre idas e vindas do hospital seguíamos confiantes. Mas as coisas não estavam saindo como desejávamos. Os exames apontavam avanço da doença. Em dezembro de 2006, uma médica da equipe que acompanhava o tratamento, me chamou para dizer, com todas as letras, que não tinham nada mais a fazer, e só me restava rezar e confiar em Deus.   Depois de uma longa crise de choro, me recompus e retornei ao quarto que ela estava. Meu coração estava moído, triturado, mas mesmo assim precisei entrar sorrindo e dizer que a médica tinha me chamado para me orientar quanto à dieta que seria preciso começar.  Minha vontade, e conversa que tinha com Deus, era para que Ele trocasse a protagonista dessa história e me deixasse no lugar dela. Mas hoje vejo que ela sim estava preparada, eu ainda não. A Rê estava pronta para o encontro com Deus.

Vivemos o mês de dezembro intensamente. Parece que minha mente “apagou” as palavras daquela médica. Que absurdo, pensava eu… Deus não permitirá!

Nosso natal foi lindo! A Renatinha amava participar das missas, e mesmo fraquinha participou de todas que pode, e na de natal também foi, já carequinha, devido a quimioterapia. Esse dia ficou marcado na memória de muita gente, pois mesmo sendo preciso participar da Celebração dentro da sacristia, devido a imunidade baixa, ela estava mais sorridente do que antes, estava radiante de alegria.

No inicio de janeiro ela começou a ter febre. Mesmo tendo ouvido o parecer dos médicos, eu ainda confiava que tudo ia mudar. Mas a febre não cedia e foi preciso nova internação. Ela chegou ao hospital, e como de costume, visitou todos os setores, abraçou a todos e foi para a oncologia. A Renatinha era muito amada por todos. Sua  fé  era contagiante.  No decorrer do tratamento, seu testemunho permitiu que alguns médicos iniciassem um encontro mensal para uma Celebração Eucarística e reflexão da Palavra de Deus. Teve início o Grupo de médicos católicos “São Lucas”.

Bom, a Renata foi internada, e a febre continuava. Mesmo assim decidiram aplicar uma sessão de quimioterapia com medicamento novo, vindo de outro país, pago através de doações de vários amigos.  Geralmente quando se tem febre não se pode fazer quimioterapia, por isso questionei o médico responsável naquele dia e ele me disse: “mãe, ou a gente combate a infecção e a febre, e corre o risco de a doença avançar brutalmente e não dar tempo de aplicar esse novo remédio,  ou a gente combate agora a doença com esse novo medicamente, mesmo correndo o risco de algumas complicações devido a baixa imunidade decorrente dessa quimioterapia”. Ele disse que não tínhamos outra saída. Disseram ainda que era preciso ser forte, porque essa quimioterapia ia doer muito, por isso ao redor dela estavam vários amigos, inclusive a psicóloga do hospital para me tirar de lá caso ela passasse mal. Minha Princesinha era valente demais! Acho que ela sentiu mal, mas se segurou por minha causa. Foram horas de profunda agonia, e meu coração já estremecia com a possível ideia de um fracasso nessa tentativa. E assim foi… uma reviravolta nos acontecimentos.

De repente a Rê precisou ser encaminhada para a UTI. Senti uma agonia tão grande, uma dor tão imensa, um pressentimento de que estava chegando a hora, e isso causava uma dor indescritível, mas eu precisava estar bem, pois ela demonstrava muita serenidade.

Na UTI as coisas foram caminhando para um desfecho que até então eu evitava pensar. Eu não queria pensar. Ela estava num quarto reservado para isolamento, dentro da UTI. Com o passar dos dias a doença avançava e as complicações começaram a aparecer. Fui tirada, quase que arrancada dali porque disseram que ela seria entubada. Acho que naquela hora um pedaço de mim já estava morrendo. Perguntei ao médico se era realmente necessário, já que ela estava tão lúcida e com um olhar tão profundo. Ele me disse que era a única forma de aliviar o sofrimento dela. Até nessa hora ela demonstrou ter uma fé grandiosa, tamanha era a serenidade com que encarava tudo isso.

A lembrança daquele olhar ainda me machuca demais. Acho que ela estava se despedindo de mim, tão profundo que era aquele olhar. Mesmo assim ela se silenciou, apenas me acompanhou com os olhos até me tirarem do quarto. Quando retornei ela já estava sedada e assim foi por alguns dias, até que tudo tivesse consumado.

Foi tudo muito difícil. Esses dias na UTI foram os mais sofridos da minha vida. Mas ao mesmo tempo em que sofria, dentro de mim brotava cada vez mais um amor tão grande por Deus. Sentia, ao mesmo tempo que a dor, uma certeza de que Ele estava ali, nos segurando firmemente.

Algumas religiosas amigas passaram comigo noites acordadas rezando e cantando, como a Rê gostava. Ela tocava violão lindamente.

Até que o dia 15 chegou… e mudou a minha vida. Na noite anterior de sua partida, recebemos a visita da “Mãe Rainha” no quarto, assim como em vários momentos difíceis ela chegava em nossa casa. Quando ela chegou ouvi no fundo do meu coração: “vim buscar essa Joia preciosa para o Reino de Deus. Coragem, eu estou aqui, junto com meu Filho Jesus”.  Pretensão minha achar que era Nossa Senhora falando no meu coração? Não, é certeza que brota da fé. Entendi que a hora do martírio tinha chegado.

Por causa de tanto sofrimento, tenho tentado lembrar só de coisas boas, do sorriso lindo que ela carregava nos rosto, e carrega ainda, hoje um sorriso eterno.  Tento preencher meu coração com as  boas lembranças, desde seu nascimento até sua partida para a casa de Deus. Do dia 15 de janeiro de 2007 até hoje continuo a aprender a conviver com a saudade.

Todos os dias, ao abrir meus olhos, a primeira coisa que vem a mente é o rostinho dela, como que me dizendo “bom dia mamãe!”.

A Rê, no quarto de hospital, prometeu que cuidaria de mim, de todos nós, todos os dias da nossa vida. Sei que ela está cumprindo, agora ainda mais, já que está diante de Jesus e pode interceder por nós.

A devoção que ela tinha por Nossa Senhora, que em outro momento pretendo relatar, me faz crer que Nossa Senhora nos acompanha a todo instante. Ela certamente nos dá forças para perseverar, ser fiel até o fim, apesar das tantas dificuldades que encontramos pelo caminho.

A partir da história de vida da Renatinha, depois da Aline e do Gustavo, surgiu o Grupo Filhos no Céu. Lugar de encontro dos corações machucados pela dor da saudade, mas sobretudo, lugar de encontro com a misericórdia de Deus. Penso que Ele quis nos reunir para ali, e num mesmo momento providenciar socorro para nossa dor. A solidariedade é fundamental nessa hora. O sofrimento quando partilhado, acalma o coração e nos ajuda a refletir melhor. Aos poucos a gente vai aprendendo que quando estamos consolando alguém, nós é que somos consolados.

É preciso confiar infinitamente em Deus e nos abandonarmos em seu amor. Somente em Deus conseguiremos forças que tanto necessitamos para cumprir nossa missão. Sei que vou chorar pelo resto da minha vida, mas será sempre um choro de saudades, não de revolta ou desespero.

Também não posso fechar meus olhos para a graça de Deus em minha vida. Ele me abençoou com uma família maravilhosa, amigos formidáveis e tudo o que preciso para não desanimar.

As lutas continuam sim, mas para quem já provou um dos maiores sofrimentos humanos – porque não dizer o maior sofrimento que um pai ou uma mãe pode sentir- sei que para as outras batalhas diárias virão também as graças necessárias para vencermos, pois Deus não nos desampara um minuto sequer.

Sei também que o que fica para sempre são os momentos vividos, por isso precisam ser vividos com intensidade, com amor, com dedicação, para quando chegar o final da missão, embora tenhamos muitas saudades e sofremos imensamente com ela, podermos olhar para as lembranças com ternura, porque serão esses momentos que nos impulsionarão a perseverar até o dia do nosso reencontro.

Precisamos buscar forças em Deus e continuar, pois ao nosso lado Deus colocou pessoas maravilhosas, que contam conosco. Se desejamos um dia reencontrar com nossos filhos, é preciso perseverar, e não desanimar. A luta é grande sim, mas Deus nos prometeu vitória ao final da jornada.

Renatinha, prova do amor de Deus em minha vida!  Saudades…

Regina Araújo

A perda dolorosa de Camila

Carríssimo Padre Rogério Neves,

Bom dia!!!

Quero primeiramente parabenizar a sua diocese pelo belo trabalho desenvolvido em prol da consolação daqueles que sofrem a perda de entes queridos, peço que DEUS ilumine sempre a todos vocês.
Pertenço à Diocese de Castanhal – Pará, Paróquia de Sant’Ana – Apeú, inspirados neste lindo trabalho de vocês fundamos em nossa comunidade o grupo de mães que rezam por seus filhos no céu. Tudo iniciou após a morte de Camila(23 anos), minha filha mais velha, vítima de um acidente de trânsito horrível. Era madrugada e ela e demais amigos resolveram sair do local que estavam para fazer um lanche e no trajeto foram surpreendidos com outro carro que não respeitou a preferencial, deixando duas vítimas fatais. Ela não morava comigo, pois vivia a sua independência com sua filha Sofia de 4 anos, defini essa noite como diz Pe. Fábio uma NOITE TRAIÇOEIRA! Pois foi desse modo que tudo se configurou, são 11 longos meses de dor. O primeiro sentimento foi a derrota, de presenciar a minha filha morta, mas Jesus esteve junto a nós (família) a todo momento. Consegui na missa de corpo presente falar agumas palavras, breve e firme lembro de ter dito “Não sabemos explicar a morte, porque é um mistério, mas acreditamos na ressurreição que nos foi prometida pelo Pai, portanto a dor não deve apagar esta certeza, pois Camila está com Ele…”. O tempo nunca teve tanta importância pra mim, como agora, tudo me reporta à Camila, a vejo em sua filha Sofia, presente de Deus para nós.
Através de um Freira da Paróquia tive acesso a Asssociação Filhos no Céu na Itália, bem como da sua diocese pela internet, e a partir dai ficamos rezando para que pudéssemos fundar esta associação aqui, e foi então que iniciamos nosso primeiro encontro dia 21/08/11, espalhei alguns convites e um pequeno grupo sem formou, foi muito bom, pois compartilhamos a mesma dor, então rezamos, refletimos e sobretudo agradecemos ao Pai a força de continuarmos firmes na nossa fé.

Unidos pela oração e consolação, agradeço por todos pela grande contribuição.

Abraço a todos

MARCILENE DE SOUSA PASSOS

 

——– Original Message ——–
Subject: A perda dolorosa de Camila
Date: Tue, 13 Sep 2011 15:47:18 +0300
From: Marcilene de Sousa Passos
To:

A perda de vocês gerou uma vida…

Quando recebemos a dádiva de uma vida, a alegria contagia, planos são feitos , futuros são projetados.

Inebriados pelo amor mais sincero e intenso, o dos pais pelos filhos, nos apropriamos da vida destes seres tão amados tentando de qualquer forma tirar-lhes as dores e percalços, como um grande escudo de amor acreditamos que o que nos é dado é algo eterno.

Certo dia, escutei uma frase “começamos a morrer desde o momento de nosso nascimento”, sombrio, mas real.

Ao imaginarmos que a morte de um filho e a inversão natural da vida, estamos colocando em duvida a supremacia divina. Deus é sábio e maravilhoso, porém somos mortais e possuímos sentimentos como dor, saudade e até a ira. Estes sentimentos também nos foram entregues por Deus, por isto temos sim o direito de chorar e sofrer por alguém que se vai.

Mas, a vida continua e temos a obrigação de entre uma lágrima e outra ir seguindo em frente, tocando a vida, por mais difícil que pareça.

Não tenho filhos, por isto realmente não posso avaliar a dor real de vocês, mas já tive minhas perdas e choro por elas. Cada um com sua cruz.

Muita força, luz e paz para todos estes pais corajosos, cujos depoimentos me ajudaram muito para perceber que existem problemas muito mais dolorosos que os meus.

Vocês podem nem imaginar , mas através das palavras escritas neste site uma vida recomeçou, sendo assim a perda de vocês, gerou uma vida, a minha, que estava prestes a se dilacerar.

Muito obrigado de coração, que Deus os abençoe e que Nsa. Senhora possa lhes secar as lagrimas com seu manto sagrado.

Gabriela Araujo