Laura

Tenho 22 anos, freqüento o terceiro ano de medicina na Universidade da minha cidade e escolhi o nome “Laura”, mesmo não sendo o meu, para poder manter o anonimato. O meu testemunho, de fato, diz respeito não só a mim mas também à minha família, ou na verdade, aquilo que restou dela, a mamãe e o papai e, por causa deles, prefiro por hora não identificar-me para não envolvê-los diretamente.

Há cerca de oito meses, pouco depois da meia noite, eu e meu irmão Luca, quatro anos mais velho que eu, voltávamos de uma festa de aniversário de um amigo nosso de infância que mora cerca de vinte quilômetros da nossa casa. Um casal de velhos companheiros de escola do meu irmão, que não víamos havia muito tempo, se ofereceu para nos levar no seu carro para podermos continuar a recordar os belos momentos que passamos juntos. De repente, o carro que estava atrás de nós fez uma ultrapassagem arriscada e nos obrigou a ir além da rua. Dada a velocidade, o carro derrapou e tombou perto da borda do canteiro próximo. Apesar do choque, porquanto difícil fosse, conseguimos escapar ilesos, o único que apresentava uma condição mais grave era o Luca, que tinha batido a cabeça e não conseguia levantar-se. Eu chamei uma ambulância, mas no caminho, em meus braços, enquanto ele tentava tranqüilizar-me dizendo: “Não se preocupe, está tudo bem”, deu seu último suspiro.

A imensa dor que se seguiu, a confusão, o atordoamento, a angústia, o vazio, a impotência, a raiva, seguiam-se num tumulto de emoções incontroláveis. Luca tinha sido sempre para mim um ponto de referência privilegiado, um companheiro extraordinário de vida, além de ser um bom irmão; sempre pronto a escutar-me e a envolver-me com as suas atenções e o seu afeto. Eu, no entanto, no momento em que tinha mais necessidade de mim não soube ajudá-lo, não soube ou não pude arrancá-lo da morte.

Quantas vezes sonhei estar de novo com ele e de conseguir salvá-lo!  Mas depois, quando acordava, era ainda mais doloroso, o vazio e a confusão que tinha dentro de mim levavam-me a duvidar até das escolhas que eu já tinha feito: Serei uma boa médica? De lá pra cá, além da dor, me sinto também muito sozinha. Depois do vai e vem inicial e da palavra firme que me diziam: “você tem de continuar”,  as pessoas que estavam próximas não sabiam dizer nada mais. Procurei, em todo caso, fazer-me forte e de retomar os estudos e os contatos com os meus amigos, mesmo sendo difícil fazê-lo, mas em casa o clima era insuportável.

Minha mãe desde então não sorria mais, se movia automaticamente do cemitério para a casa, algumas vezes na missa; ela seguia em frente, mas a mente e o coração permaneciam bloqueados àquele fatídico dia. Não se interessava mais pelas coisas que estava fazendo, nem mesmo por mim. Era tão ausente que não me via, como se de repente tivesse me tornado transparente. Se alguma vez conseguia encontrar fora  de casa um pouco de serenidade e procurava levá-la para dentro, ela me olhava com olhar de repreensão, fazendo-me quase sentir culpa, se ao contrário eu estava triste não era nunca mais do que o que ela estava experimentando. Confesso que às vezes desejei ter estado no lugar de Luca, esperando que a minha morte a tivesse feito sofrer menos. O diálogo escasso que eu tinha antes com papai, freqüentemente distante pelo trabalho, praticamente deixou de existir.

Sabia bem que eles não estavam em condições de me ajudar e eu é que devia ajudá-los, mas sozinha não conseguia. A ausência de Luca tinha feito descer um véu sobre as coisas e sobre as pessoas abafando os relacionamentos. Mesmo com os amigos mais queridos eu me sentia sempre como uma estranha.

Um dia, cerca de três meses atrás, navegando na internet “por acaso” mas tenho certeza de ter sido guiada por Luca, descobri o site de vocês (www.figlincielo.it), o afeto de vocês, o calor de vocês, a luz do itinerário de vocês. Fiz imediatamente contato e finalmente encontrei uma pessoa com quem falar, capaz de me escutar e compreender as coisas que por muitos meses eu estava “sepultando” dentro de mim, junto com Luca. Com esta pessoa pude compartilhar o tremendo momento que eu estava vivendo. É como se, de repente, tivesse sido acesa uma lâmpada dentro de mim, no profundo do coração, a lâmpada da esperança e da fé.

Hoje agradeço de coração sincero a Deus por me ter feito encontrar esta pessoa querida (ainda que ela tenha preferido permanecer anônima) que se pôs ao meu lado, discretamente, dedicando-me tanto tempo de atenção e amor.

Seguindo cada dia o itinerário de fé e de oração através das profundas reflexões do site, das orações que recito todas as noites, os cânticos que se transformaram no “restauro da minha alma”, consegui aproximar-me do mistério de Maria, a dulcíssima Mãe que soube “estar” ao lado do seu Jesus ao longo do Calvário, aos pés da Cruz, e soube esperar com segura esperança a sua Ressurreição. O seu coração de mãe abriu também o meu coração de filha, endurecido pelos eventos e também pelo egoísmo, que nestas circunstâncias emerge com maior prepotência, permitindo-me levar luz às minhas trevas e compreender melhor também o drama que os meus pais estavam vivendo, sobretudo a mamãe, com a qual hoje se criou um relacionamento ainda mais intenso e profundo. Iremos juntas à Vigília Pascal e cantaremos o “Ressurrexit” (Ressuscitou) com Luca! Obrigada.

(Extraído de “Indisparte”, periódico italiano semestral de espiritualidade, promovido por “Figli in Cielo” I ano III – n. 1 – março de 2005).

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