Lucia e Roberto

Somos os pais de Francesco, um doce rapaz que foi para o céu há cerca de dois anos e meio, com apenas vinte e um anos, e com a ajuda de Deus, estamos tentando desenvolver na nossa diocese o ministério da consolação na Família de “Filhos no céu”, que tanto desejamos e quisemos na nossa realidade, da qual somos agentes há dois anos e queremos partilhar com vocês a importante experiência que vivemos há alguns meses quando fomos convidados para um encontro promovido pela nossa diocese sobre o tema: “Prospectivas antropológicas sobre o sofrimento na família”.

“Agradecemos de coração esta importante oportunidade que vocês nos oferecem de levar ao interno da Igreja o nosso humilde testemunho, que fazemos voto seja de ressurreição e de esperança, e pedimos desculpas se, tomados pela emoção, não conseguirmos exprimir corretamente o que temos no coração, mas podemos assegurar que a cada palavra o colocaremos nas mãos de vocês. A nossa grande e bela família é reconhecida na Igreja como Associação laical, isto é formada por muitas famílias, seja na Itália seja no exterior, que, em comunhão com os nossos filhos no céu, procuram levar a mesma consolação que receberam a quem viveu a mesma experiência, ajudando-se reciprocamente a elaborar o luto no mistério de Jesus Ressuscitado.

Mesmo não querendo diminuir outras formas de sofrimento, dos quais também nós, não estamos imunes na vida, como acontece a tantas outras famílias, podemos assegurar que a perda de um filho é um evento tão devastante que faz morrer por dentro.

Tira a sua própria vida, os afetos, os interesses, os projetos, as esperanças, tudo é revirado e aparentemente, no início, nada tem mais sentido.

Se até então o nascimento de nosso filho nos fez sentir donos do mundo, capazes de administrar a vida, agora, com ele, tudo tinha ido embora: presente, passado, futuro.

Nos sentíamos também nós sepultados naquela tremenda tumba.

Só a morte, e ainda mais a morte de um filho, obriga você a se medir com os seus próprios limites e a abandonar aquele delírio de onipotência pelo qual todos, mais ou menos, educados pela sociedade na qual vivemos, somos contagiados. Dia após dia, com muita fatiga, mas verdadeiramente, também com muita ajuda da parte de Deus e seguramente de nosso filho que sabíamos, pela fé, estava ao nosso lado a nos dar força, começamos a ver no nosso horizonte algum vislumbre de luz. Nos demos conta de que tudo é dom de Deus, também nosso filho e, mesmo se representava toda a nossa vida e teríamos dado tudo para vê-lo um só instante, tivemos também que fazer as contas com a dura realidade que se apresentou e tomar consciência de que nem tudo o que queremos é possível realizar, há uma Vontade, superior à nossa, que nos ama e nos conduz e que deve ser escutada, respeitada e acolhida.

Então, pouco a pouco tudo se tornou relativo, mudou totalmente o nosso modo de viver, você vive no mundo mas não raciocina mais com a mentalidade do mundo.

Fomos como que renascidos para uma vida nova, como nosso filho. Descobrindo o nosso limite, reconhecemos a onipotência de Deus na nossa vida, instaurando com Ele, um relacionamento intenso de amor.

Descobrimos que a maternidade e a paternidade é um dom que deve ser partilhado não somente com o marido ou a esposa, mas principalmente com Deus que nos doou um filho para nos encher de gozo aqui e na eternidade, através daquela semente de amor que não morre nunca, que nos faz “um em Deus”, que nasceu aqui mas que agora está no Céu fazendo transformar também a nós “pais do Céu”.

Este novo relacionamento com Deus é centrado no amor, um amor que não podemos menosprezar, transformou-se no ar que respiramos. Nos ajuda a viver em comunhão com Ele e com nossos filhos e com as outras famílias que sofrem.

A nossa vida agora é totalmente dirigida a Deus, lá onde você sabe que um dia poderá abraçar novamente o seu filho. No início também nós nos rebelamos, “por que meu filho?”, nos sentimos traídos, como se o caminho de fé que fizemos antes nos tivesse de fazer imunes a toda e qualquer prova. No entanto, percebemos que Ele não nos tinha abandonado, esteve sempre cuidando de nós, cultivando em nós o dom da fé para nos preparar para uma prova assim tão grande. As primeiras respostas que procuramos encontramos na associação “Filhos no Céu”.

Compreendemos que a morte em Cristo é uma passagem a uma vida melhor, não é punição mas eleição, transforma-se em fonte fecunda de vida nova e o Senhor nos estava chamando a uma grande missão: ser testemunhas da sua ressurreição e seus instrumentos de consolação, doando gratuitamente a outras famílias aquela consolação que Ele gratuitamente nos tinha dado.

Agora todos os dias agradecemos a Deus por nos ter feito encontrar esta bela e grande Família, onde vivemos relacionamentos fraternos intensos, verdadeiros, autênticos, onde continuamente tocamos com a mão a Sua presença viva e operante.

Nos nossos encontros, no início, vêm somente mães desesperadas, depois, milagrosamente, o seu rosto relaxa, se ilumina, irradia uma paz que não é deste mundo e chegam também os pais, para saciar-se na mesma e única Fonte de vida eterna e é grande a alegria para todos nós na terra e para os nossos filhos no Céu”.

 

(extraído de “Indisparte”, periódico italiano semestral de espiritualidade promovido por “Figli in Cielo” I ano I – n.IV – n. 1 – dezembro de 2006).

5 pensamentos sobre “Lucia e Roberto

  1. Cara Letícia, a Paz de Jesus!

    Cremos que Deus te dará essa paz que você tanto deseja ter, e que sem dúvida nenhuma é fundamental para podermos seguir em frente.
    Aproxime-se ainda mais de Deus pela oração e permita que Ele te carregue nos braços. Mas tenha paciência, pois o tempo de Deus é diferente do nosso tempo, e além disso, para tudo há um tempo determinado.
    Não exija tanto de você. A dor é grande demais, e é preciso tempo, calma, fé e coragem para reorganizarmos a vida, reaprendermos a viver.
    Mas aceitar ou não pode nos conduzir pelos caminhos da angústia ou da paz. A aceitação do sofrimento não é próprio da natureza humana, e só é possível pela graça de Deus. A dor é tanta que precisa ser envolvida pela fé, pois só pela fé se consegue permanecer firme nessa caminhada.
    Fácil, sabemos que não é. Mas com Deus a dor se acalmará e as graças que tanto precisamos estarão sempre presentes em nossa vida.
    Deus te ama infinitamente e deseja te ver firme na fé.
    A fé nos faz ter esperança e a esperança nos faz crer que a vida dos nossos filhos foi transformada numa vida eterna, ao lado de Deus.
    Cada um tem uma missão. Nossos filhos já cumpriram a deles, mas nós ainda não, por isso querida Letícia, jogue-se nos braços amorosos de Deus e confie que Ele caminha sempre a nossa frente.
    Aproveite esses momentos que você diz ficar quietinha em casa para colocar-se na presença de Deus em oração. Quem sabe num desses momentos Deus te mostre o que fazer para te ajudar nessa missão. Apenas evite o isolamento, tão prejudicial em todos os sentidos. Afastar-se um pouco faz parte desse sofrimento, mas isolar-se só aumentará ainda mais a dor.
    Em BH ainda não temos um Grupo “Filhos no Céu”. Quem sabe Deus encaminhará todas as coisas e num momento oportuno poderemos preparar algumas mães para dar inicio aos encontros aí. Vamos colocar no coração de Deus, e se for de sua vontade, estaremos à disposição para ajudar no que for preciso. Qualquer coisa, por favor, nos escreva.
    Deus a abençoe muito e te dê consolo, esperança e paz, em Cristo Jesus!
    Conte sempre conosco!
    Fraternalmente,

    Regina Araújo

  2. Lucia e Roberto,como eu gostaria de estar como voces, com esta paz de espírito.infelismente ainda estou muito incomformada com a perda de meu filho a tres meses, ele so tinha 25 anos,muitos planos e muita alegria de viver.Não consigo aceitar ,ele não merecia viver tão pouco. Gostaria tambem que aqui em Belo Horizonte tivesse pessoas como voces ,com esta entrega em fazer a tristeza mais suportável. Me sinto melhor em casa,quieta lendo ou rezando. Sempre estou lendo depoimentos dos Filhos no ceu, o que tem me ajudado muito . Um abraço

  3. Prezada Cleide,

    A paz do Senhor Jesus esteja com você.
    Tudo dói, o tempo é recente, o desejo de ficar quietinha, como você coloca, faz parte desse momento, e respeite isso em você. Apenas não ser perca na dor.
    O desejo de estar com filho, é um sinal de esperança. Uma esperança que se socorre quando estiver sentindo a dor da saudade.
    Hoje o nosso companheiro Rodolfo, postou Consolar e ser consolado, e lá ele diz que muitas vezes achou que não fosse aguentar, passou pelo o que você passou, mas hoje após 7 anos que o filho dele foi morar no céu, ele está de pé.
    Ele também vive um dia de cada vez, olha a vida com a perspectiva de quem tem vontade de viver, mas não tem medo de partir. Esse é o sentimento de quem está passando pela pior dor do mundo.
    Perder um filho dói de forma física, uma saudade que está além da metáfora do coração, porque dói no corpo todo. Mas só pode doer por amor. A saudade só pode doer porque se ama muito o filho que partiu e foi morar no céu, e não mais por outro motivo.
    Momento de dor, mas também de uma missão confiada que renova o amor com a fé e a esperança,
    Peça a Deus que venha ao teu socorro, e Ele Pai, de todos nós, autor da vida, virá. Porque o Pai da misericórdia é o Deus de toda consolação (2Cr 1,3).

    Deus te abençoe profundamente. Conte com nossas orações.

    Atenciosamente,

    Eliete Gomes

  4. Eu espero e desejo do fundo da minha alma que um dia possa eu estar pensando como vc,hoje não consigo,hoje estou triste uma tristeza que parece não ter fim,gostaria de estar com meu filho,só tinha 22 aninhos ,hoje está fazendo 33 dias que ele se foi.Peço perdão a Deus tdos os dias por sentir essa vontade de ir embora tbém,peço perdão ao meu filho por ser tão fraca,achei que fosse forte mas não sou.É uma saudade q dói muito,minha alegria foi embora,meu animo,minha esperança,minha vontade de ter um futuro,tdo se foi.Nesse momento só queria me deitar e ficar lá bem quietinha por muito,muito tempo.

    • Querida Cleide,

      Deus a abençoe e lhe de muita força para suportar essa dor, a dor maior que uma mãe pode ter, a partida de um filho e quando isso acontece lá se vai também uma parte de nós e com ele todos os nossos sonhos, alegrias e esperança.
      Sou Neuza, faço parte do grupo filhos no céu, Perdi meu filho Gustavo, com 19 anos vitima de um atropelamento.
      Já se passaram mais de 6 anos e ainda choro muito, tenho muita saudades.
      Cleide tudo isso que você sente, também senti e ainda as vezes sinto, tudo isso faz parte do luto, tudo tem a sua hora.
      Sentimos muita tristeza, temos vontade de ir embora também, parece que nunca mais sorriremos, queremos ficar no nosso cantinho quietinho, porem não podemos, temos que reagir, buscarmos em Deus nosso consolo.
      Somente o tempo, nos fará reviver enquanto Jesus nos carrega no colo.
      Temos que pensarmos em nossa familia, nos filhos que ficaram, em o quanto eles precisam de nós,

      Fé. força e coragem.
      estamos unidos em oração, que Jesus ilumine a cada segundo de tua vida.
      Neuza e Rodolfo.

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