Renatinha: cinco anos de vida no Céu!

RENATINHA: CINCO ANOS DE VIDA NO CÉU!

No dia 15 de janeiro deste ano, a Renatinha completou cinco anos de vida no Céu.  Esses cinco anos tem sido de aprendizado diário. Tento evitar lembranças tristes, talvez como maneira de “lidar” melhor com a saudade, já que ela é brutal demais. Não que evite pensar na minha filha querida, mas evito pensar nas circunstâncias em que tudo aconteceu, em momentos que não me ajudam a caminhar, mas ainda me fazem sofrer demais.

Os quase dois anos de tratamento foram muito contraditórios. Ao mesmo tempo em que sofríamos diariamente com sua doença, ríamos frequentemente; ela era muito alegre, otimista, sempre fomos muito felizes. Foi nesse período que sentimos profundamente o amor de Deus na nossa vida. Foi a partir daí que fizemos uma experiência profunda de fé.

Lembrar da Renata é uma bênção. Seu rostinho sorridente não sai da minha cabeça sequer por um segundo. A todo instante parece que a vejo do meu lado, e conforta o coração viver sentindo sua presença, ainda que espiritual. Às vezes, quase sempre, acabo chorando. Não vejo problema nenhum em chorar, é até positivo chorar, mas geralmente evito chorar na frente de alguém, principalmente da minha família. Isso porque quero poupá-los, já que eles também carregam essa dor no coração. Mas minha fé me faz crer que a vida dela foi transformada numa vida eterna ao lado daquele que ela mais amou: Jesus Cristo, e por Ele foi fiel e obediente, apesar de tanto sofrimento.

A Renata me ensinou muito, e ainda me ensina. É estranho dizer isso, mas em diversas situações me vi tentando “pensar” e “agir” como ela… Apesar de estar muito longe do agir e pensar daquela preciosidade.

Quando ela se foi, fiquei perdida em meio a dor, porque por mais fé que tivesse naquele momento, no fundo também queria entender. Passei noites inteiras acordada.  Não tinha fome, mas me alimentava porque sabia que era preciso reagir. Não sentia e não sinto revolta, mas lidar com a saudade, o lugar vazio à mesa, na cama, na vida, é muito difícil de encarar. É preciso reaprender a viver, é preciso reorganizar a vida.

A Rê, dentre os pacientes da oncologia na ocasião, era a que mais demonstrava possibilidades de cura. O tratamento começou em maio de 2005. Nesse intervalo foi preciso ser submetida a uma cirurgia cardíaca e várias sessões de quimioterapia. Em todos os momentos ela estampava em seu rostinho um sorriso maravilhoso. Uma fé madura, impressionante. O tratamento seguia, entre idas e vindas do hospital seguíamos confiantes. Mas as coisas não estavam saindo como desejávamos. Os exames apontavam avanço da doença. Em dezembro de 2006, uma médica da equipe que acompanhava o tratamento, me chamou para dizer, com todas as letras, que não tinham nada mais a fazer, e só me restava rezar e confiar em Deus.   Depois de uma longa crise de choro, me recompus e retornei ao quarto que ela estava. Meu coração estava moído, triturado, mas mesmo assim precisei entrar sorrindo e dizer que a médica tinha me chamado para me orientar quanto à dieta que seria preciso começar.  Minha vontade, e conversa que tinha com Deus, era para que Ele trocasse a protagonista dessa história e me deixasse no lugar dela. Mas hoje vejo que ela sim estava preparada, eu ainda não. A Rê estava pronta para o encontro com Deus.

Vivemos o mês de dezembro intensamente. Parece que minha mente “apagou” as palavras daquela médica. Que absurdo, pensava eu… Deus não permitirá!

Nosso natal foi lindo! A Renatinha amava participar das missas, e mesmo fraquinha participou de todas que pode, e na de natal também foi, já carequinha, devido a quimioterapia. Esse dia ficou marcado na memória de muita gente, pois mesmo sendo preciso participar da Celebração dentro da sacristia, devido a imunidade baixa, ela estava mais sorridente do que antes, estava radiante de alegria.

No inicio de janeiro ela começou a ter febre. Mesmo tendo ouvido o parecer dos médicos, eu ainda confiava que tudo ia mudar. Mas a febre não cedia e foi preciso nova internação. Ela chegou ao hospital, e como de costume, visitou todos os setores, abraçou a todos e foi para a oncologia. A Renatinha era muito amada por todos. Sua  fé  era contagiante.  No decorrer do tratamento, seu testemunho permitiu que alguns médicos iniciassem um encontro mensal para uma Celebração Eucarística e reflexão da Palavra de Deus. Teve início o Grupo de médicos católicos “São Lucas”.

Bom, a Renata foi internada, e a febre continuava. Mesmo assim decidiram aplicar uma sessão de quimioterapia com medicamento novo, vindo de outro país, pago através de doações de vários amigos.  Geralmente quando se tem febre não se pode fazer quimioterapia, por isso questionei o médico responsável naquele dia e ele me disse: “mãe, ou a gente combate a infecção e a febre, e corre o risco de a doença avançar brutalmente e não dar tempo de aplicar esse novo remédio,  ou a gente combate agora a doença com esse novo medicamente, mesmo correndo o risco de algumas complicações devido a baixa imunidade decorrente dessa quimioterapia”. Ele disse que não tínhamos outra saída. Disseram ainda que era preciso ser forte, porque essa quimioterapia ia doer muito, por isso ao redor dela estavam vários amigos, inclusive a psicóloga do hospital para me tirar de lá caso ela passasse mal. Minha Princesinha era valente demais! Acho que ela sentiu mal, mas se segurou por minha causa. Foram horas de profunda agonia, e meu coração já estremecia com a possível ideia de um fracasso nessa tentativa. E assim foi… uma reviravolta nos acontecimentos.

De repente a Rê precisou ser encaminhada para a UTI. Senti uma agonia tão grande, uma dor tão imensa, um pressentimento de que estava chegando a hora, e isso causava uma dor indescritível, mas eu precisava estar bem, pois ela demonstrava muita serenidade.

Na UTI as coisas foram caminhando para um desfecho que até então eu evitava pensar. Eu não queria pensar. Ela estava num quarto reservado para isolamento, dentro da UTI. Com o passar dos dias a doença avançava e as complicações começaram a aparecer. Fui tirada, quase que arrancada dali porque disseram que ela seria entubada. Acho que naquela hora um pedaço de mim já estava morrendo. Perguntei ao médico se era realmente necessário, já que ela estava tão lúcida e com um olhar tão profundo. Ele me disse que era a única forma de aliviar o sofrimento dela. Até nessa hora ela demonstrou ter uma fé grandiosa, tamanha era a serenidade com que encarava tudo isso.

A lembrança daquele olhar ainda me machuca demais. Acho que ela estava se despedindo de mim, tão profundo que era aquele olhar. Mesmo assim ela se silenciou, apenas me acompanhou com os olhos até me tirarem do quarto. Quando retornei ela já estava sedada e assim foi por alguns dias, até que tudo tivesse consumado.

Foi tudo muito difícil. Esses dias na UTI foram os mais sofridos da minha vida. Mas ao mesmo tempo em que sofria, dentro de mim brotava cada vez mais um amor tão grande por Deus. Sentia, ao mesmo tempo que a dor, uma certeza de que Ele estava ali, nos segurando firmemente.

Algumas religiosas amigas passaram comigo noites acordadas rezando e cantando, como a Rê gostava. Ela tocava violão lindamente.

Até que o dia 15 chegou… e mudou a minha vida. Na noite anterior de sua partida, recebemos a visita da “Mãe Rainha” no quarto, assim como em vários momentos difíceis ela chegava em nossa casa. Quando ela chegou ouvi no fundo do meu coração: “vim buscar essa Joia preciosa para o Reino de Deus. Coragem, eu estou aqui, junto com meu Filho Jesus”.  Pretensão minha achar que era Nossa Senhora falando no meu coração? Não, é certeza que brota da fé. Entendi que a hora do martírio tinha chegado.

Por causa de tanto sofrimento, tenho tentado lembrar só de coisas boas, do sorriso lindo que ela carregava nos rosto, e carrega ainda, hoje um sorriso eterno.  Tento preencher meu coração com as  boas lembranças, desde seu nascimento até sua partida para a casa de Deus. Do dia 15 de janeiro de 2007 até hoje continuo a aprender a conviver com a saudade.

Todos os dias, ao abrir meus olhos, a primeira coisa que vem a mente é o rostinho dela, como que me dizendo “bom dia mamãe!”.

A Rê, no quarto de hospital, prometeu que cuidaria de mim, de todos nós, todos os dias da nossa vida. Sei que ela está cumprindo, agora ainda mais, já que está diante de Jesus e pode interceder por nós.

A devoção que ela tinha por Nossa Senhora, que em outro momento pretendo relatar, me faz crer que Nossa Senhora nos acompanha a todo instante. Ela certamente nos dá forças para perseverar, ser fiel até o fim, apesar das tantas dificuldades que encontramos pelo caminho.

A partir da história de vida da Renatinha, depois da Aline e do Gustavo, surgiu o Grupo Filhos no Céu. Lugar de encontro dos corações machucados pela dor da saudade, mas sobretudo, lugar de encontro com a misericórdia de Deus. Penso que Ele quis nos reunir para ali, e num mesmo momento providenciar socorro para nossa dor. A solidariedade é fundamental nessa hora. O sofrimento quando partilhado, acalma o coração e nos ajuda a refletir melhor. Aos poucos a gente vai aprendendo que quando estamos consolando alguém, nós é que somos consolados.

É preciso confiar infinitamente em Deus e nos abandonarmos em seu amor. Somente em Deus conseguiremos forças que tanto necessitamos para cumprir nossa missão. Sei que vou chorar pelo resto da minha vida, mas será sempre um choro de saudades, não de revolta ou desespero.

Também não posso fechar meus olhos para a graça de Deus em minha vida. Ele me abençoou com uma família maravilhosa, amigos formidáveis e tudo o que preciso para não desanimar.

As lutas continuam sim, mas para quem já provou um dos maiores sofrimentos humanos – porque não dizer o maior sofrimento que um pai ou uma mãe pode sentir- sei que para as outras batalhas diárias virão também as graças necessárias para vencermos, pois Deus não nos desampara um minuto sequer.

Sei também que o que fica para sempre são os momentos vividos, por isso precisam ser vividos com intensidade, com amor, com dedicação, para quando chegar o final da missão, embora tenhamos muitas saudades e sofremos imensamente com ela, podermos olhar para as lembranças com ternura, porque serão esses momentos que nos impulsionarão a perseverar até o dia do nosso reencontro.

Precisamos buscar forças em Deus e continuar, pois ao nosso lado Deus colocou pessoas maravilhosas, que contam conosco. Se desejamos um dia reencontrar com nossos filhos, é preciso perseverar, e não desanimar. A luta é grande sim, mas Deus nos prometeu vitória ao final da jornada.

Renatinha, prova do amor de Deus em minha vida!  Saudades…

Regina Araújo

3 pensamentos sobre “Renatinha: cinco anos de vida no Céu!

  1. Por favor peço uma palavra de conforto, pois a mais de dois meses meu filho Vítor Isaac de 3 aninhos foi morar com Deus, e me sinto culpada por tudo que aconteceu, mesmo as pessoas me dizendo que não tive culpa, que ele foi porque Deus quis que fosse assim. Me ajudem, preciso de alguém pra conversar, alguém que entenda a minha dor.

  2. Dinda também sinto muita, muita saudade da Rê, ela é minha eterna amiga, sempre está do meu lado me ajudando. Eu chorei muito ao ler o que a senhora escreveu, a saudade foi ainda maior. Acho que nunca contei pra vcs, mais quando a Rê foi encontrar com papai do céu, eu sonhei com ela me dizendo que ela estava bem e ao lado de Deus e que era pra mim ser forte e que ela sempre estará comigo. Eu a amo muito e vcs também, sempre vou estar com vcs. Amo muito vcs mnha familia. Saudades!!!!!!!!!!!

    • Sil querida,

      A Rê nos faz muita falta… a saudade chega a doer… mas não podemos desanimar, até porque temos também nossa missão para cumprir, e nossa fé nos faz crer que ela está espiritualmente conosco. Sinto a presença dela constantemente ao meu lado. Mistérios de Deus, e uma questão de fé!
      O amor que sentimos por ela ultrapassou a barreira da vida, e hoje está ainda mais forte, mais profundo, um amor que se tornou eterno.
      Louvo a Deus a cada instante por ter nos abençoado com a vida dela, que foi e continua sendo um grande ensinamento para nós. A luta é grande, você sabe, mas vamos em frente, contando sempre com a graça e misericórdia de Deus.
      Obrigada Sil por estar sempre conosco, aliás, obrigada por tudo!
      Bjs,

      Dinda

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